Torre de Babel
Você já se sentiu falando em outro idioma na sua empresa quando o tema é sustentabilidade ? A Torre de Babel, segundo a narrativa bíblica no Gênesis, foi uma torre construída com o objetivo que o cume chegasse ao céu. Deus parou o projeto ao confundir a sua linguagem e espalhar o povo sobre toda a terra. A cada nova reunião com empresas que querem discutir sustentabilidade, me deparo com formas cada vez mais variadas de entendimento dos outros sobre do que estamos realmente tratando. O termo, se por um lado foi útil para criar um movimento, por outro lado padece de compreensão. Se eu lhe pergunto “quer água?” e você entende que água é café, poderá dizer não quando na verdade estava com sede. É mais ou menos isso o que venho observando e, na tentativa de criar uma forma mais adequada de entendimento, venho também tentando criar formas mais claras, objetivas e diretas de explicar sustentabilidade para cada público específico. O post é longo pois a simplicidade dificilmente é atingida sem um longo caminho.
A linguagem das tribos
Estava outro dia na fila do aeroporto, esperando minha vez para fazer o check-in. À minha frente, três pessoas discutiam (o termo é esse mesmo, discutiam) sobre o terceiro setor. De tão alto que falavam e de tanto que a fila não andava, restou-me ouvir a história quase que toda. Um deles dizia que o terceiro setor não visava lucro, enquanto as empresas sim e, portanto, suas ações eram pautadas por outros fundamentos éticos, menos individualistas. Outro dizia que o terceiro setor era como uma empresa, que gerava superávit e que tudo era uma mera questão de terminologia. O terceiro, dizia que havia uma diferença entre superávit e lucro, que este último remunerava os acionistas enquanto o superávit voltava para a causa do terceiro setor. O segundo, que defendia a igualdade das coisas, dizia que tudo era uma questão de como contabilizar e que se, por hipótese, os funcionários de uma ONG tivessem salários acima do mercado ou outras regalias que lhe transferissem valor (como usar o carro da entidade para fins pessoais) estariam retirando recursos que seriam, no fundo, equivalentes a lucro porém travestidos de custos operacionais, e portanto remunerando indiretamente indivíduos e não a causa em si.
Próximoooooo!!!!
E lá fui eu para o balcão…
Cada tribo (por tribo leia-se, grupos de semelhantes), sejam empresas, ONGs, governos, jornalistas, psicólogos, antropólogos, e outros “ólogos”, “istas”, e coisas afins, tem seu próprio dicionário. Em resumo, o sentido das palavras varia conforme a “tribo” que estamos imersos.
O fato é que, quando tratamos de sustentabilidade, por ser algo de conceito, algo de idealismo, algo de concreto, algo de econômico, e tudo isso ao mesmo tempo, somos obrigados a fazer com que as tribos se entendam.
Isto porque a questão central que se discute é o que pode ser melhor para todos.
Aqui mesmo em nossa empresa, na Origami, vivemos com essas discussões infindáveis. Ontem mesmo, estava com um grupo que afirmava existirem projetos que eram de sustentabilidade e outros não. Como se sustentabilidade fosse algo que pudéssemos simplesmente escolher fazer, ignorando que, na prática, é algo dado pelo contexto social e não uma mera condição de escolha. Dado que a sociedade evolui no campo da democracia e da liberdade de expressão, qualquer grupo (ou tribo) que se sinta incomodado pelos resultados das ações de outro grupo tende a se manifestar no sentido contrário. Assim é com consumidores reclamando de empresas, cidadãos reclamando dos governos, sindicato defendendo os interesses dos trabalhadores, ambientalistas e ruralistas, sem terra e latifundiários, muçulmanos e outras religiões, partidos políticos entre si e, como se já não fosse pouco tudo isso, a mídia pondo fogo ao colocar as opiniões contraditórias frente à frente com a tal “imparcialidade” às vezes um tanto quanto questionável.
Em resumo, a Torre de Babel na verdade se espalhou pelas planícies, vales e planaltos, tomou todo o espaço existente e, o céu almejado narrado em Gênesis, recebeu agora um novo nome: sustentabilidade. Um paraíso onde todos procuram o bem estar mutuo e a felicidade. Enfim, se Deus a isso intencionava, conseguiu atingir seu objetivo de forma irrepreensível. Merece receber bônus duplicado nesse ano celestial.
Brincadeira de criança
Na minha infância havia uma brincadeira do tipo ”non-sense” mais ou menos assim: chegávamos próximos a um colega e dizíamos:
- era uma vez um trem que andava sobre as nuvens douradas quando, de repente, furou um pneu. Quantas abóboras sobraram ?
O colega, atônito com essa pergunta feita de surpresa, tentando decifrar a frase, onde estava a pegada, demorava um pouco para responder, quando saímos com essa:
- Oito, porque banana não tem caroço !
A frase é cheia de palavras que todos as entendem isoladamente mas, quando agregadas, gera um todo que não faz o menor sentido.
Estamos hoje, a meu ver, brincando inconscientemente nesse jogo quando o termo é “sustentabilidade”.
No recente relatório “Estado do mundo 2010”, muito bom por sinal e cuja leitura indico, são apresentadas diversas iniciativas em curso nas mais variadas áreas, mostrando que existem segmentos da sociedade que, ainda muito isoladamente, estão tomando a dianteira deste processo de mudança.
Falam, no relatório, em lideranças consideradas “pioneiras”, que fazem hoje ecoar aos quatro cantos do mundo a necessidade de uma nova lógica de convivência com o planeta (incluindo seus habitantes) a partir de novos hábitos e costumes.
Perigo à vista…
Já que iniciei falando em Gênesis, essa questão dos “pioneiros” remete-nos a uma certa forma “profética” de representar essas lideranças. Se na Torre de Babel o céu era almejado e que posteriormente os profetas foram aqueles que começaram a dizer a todos sobre a vinda de um novo Rei, parece-me que o “tom” do relatório traz a figura dos tais pioneiros como os profetas de outrora.
Tudo isso preocupa, pois há um certo pano de fundo de “salvadores” e realmente penso que o caminho, desta forma, torna-se perigosamente próximo de estar ligado a um certo idealismo. Os ideais são úteis para se iniciar um movimento, pois formatam uma determinada percepção sobre aspectos sociais que outrora estavam obscuros. Mas o tempo passa e esses mesmos ideais podem vir a se transformar em verdades incontestáveis, quando então paramos de questionar. É aí que mora o perigo.
Não tenho certeza se devemos profetizar a sustentabilidade como forma de criar uma nova cultura de consumo e produção, como propõe nas entrelinhas o mencionado relatório. É importante, antes de tudo, que saibamos do que estamos falando para que, a partir de uma compreensão mais próxima do correto, possamos efetivamente determinar caminhos factíveis.
O relatório, ao mencionar que consumimos muitos planetas ao mantermos nossos padrões atuais, traz uma verdade: os dados estão todos lá, incontestáveis. Mas existem determinadas verdades que motivam à ação e outras que tem efeito paralisante. No caso em específico, em momento algum se comenta que esses produtos que consumimos estão nutrindo milhões de empregos. Se todos nós, apenas a titulo de especulação, resolvêssemos reduzir nosso consumo em um terço, o que aconteceria com estas pessoas que hoje dependem dos empregos que produzem o que consumimos ? Além disso, se consideramos que uma parcela equivalente a cinco sextos da população consome 20% de tudo o que é consumido (segundo dados do relatório) está, como poucas vezes antes, tendo acesso a melhores condições materiais dado o crescimento global, como dizer agora para estas pessoas não comprarem aquele batom ou aquele celular que sempre quiseram ? Seria justo ? Seria factível ? Seríamos ouvidos ? Teria efeito prático ?
Penso que não.
Portanto, imaginar que haverá uma elevação da consciência planetária com todo o problema de linguagem que nos cerca nas diversas tribos das quais participamos ou pertencemos, parece-me ser uma tarefa que não será simples, não será no curto prazo, mas que ao mesmo tempo não poderemos de deixar de enfrentá-la.
O que mais poderíamos fazer ? Talvez tentar começar a, para cada tribo com sua própria linguagem, criar uma forma mais clara de explicar a sustentabilidade sob seu ponto de vista, de modo a ampliar o entendimento através de adequações de linguagem, porém sem jamais mudar ou perder sua essência, qual seja, a preocupação com “o outro no tempo” como extensão da preocupação com o “consigo mesmo no presente”.
As tribos das empresas
Estas tribos são formadas por espécies de diversas naturezas, mas todos com um objetivo comum: ganhar dinheiro para as mais diversas formas de atender ao que, cada um e a seu modo, entende como suas necessidades. Existe a espécie chamada “acionistas”, outros que são chamados “executivos”. Há também espécie de “colaboradores”, também conhecidos como “funcionários”. Esta tribo se associa a outras semelhantes, usualmente chamadas “fornecedores” ou “parceiros”. Claro, a espécie “cliente” também. Todas elas, em conjunto, buscam constantemente tirar vantagens umas sobre as outras e, dessa resultante de vantagens e desvantagens, a equação financeira faz sobrar mais para umas do que para outras. Mas estão todas lá, amarradas entre si com fios invisíveis porém fortes: “a necessidade e a ganância” a serviço “do desejo e da oferta”.
Isso já provocou, no passado, a divisão do mundo em 2 partes: os que acreditavam no individualismo dos resultados e os que acreditavam na coletividade dos benefícios. Mas a história mostrou que esta segunda, a parte dos coletivistas, não durou muito tempo dado que se eram supostamente semelhantes nas igualdades de propriedade eram muito diferentes nas regalias, no poder. E o modelo coletivista ruiu, voltando o mundo a ser predominado pela lógica dos individualistas.
Pois é… parece que contar assim é como tentar explicar as coisas para uma criança, mas às vezes esse exercício de simplificação nos faz ter de buscarmos as essências. E talvez devamos reconhecer que estas essências estão aí, presentes e inerentes ao gênero humano. Um instinto de sobrevivência afinal ganhos, poder, acumulação, são formas e intensidades diferentes de lidar com o medo instintivo da fome, do frio e da morte. O que faz a vida de Bill Gates melhor por ter mais de US$ 50 bilhões em sua fortuna, se tivesse “apenas” US$ 10 bilhões ? Certamente sua vida não seria diferente em nada. Há algo mais profundo e nada é mais profundo do que o medo instintivo do sofrimento, da morte, da perda.
Mas tudo isso para dizer o seguinte: precisamos reconhecer que nesta tribo a lógica é essa, por mais perversa que pareça. Tentar “humanizar” estas relações é correr o risco de ignorar a realidade (em que pese, diversas empresas venham continuamente tentando humanizar o ambiente de trabalho, a meu ver em vão até o momento). A humanização destas relações, mesmo quando realizadas com o mais nobre propósito daqueles que o propõe fazer, ignora a realidade, torna-se cega e, com o tempo, os chamados “momentos da verdade” (aquelas situações em que as pessoas devem escolher entre o certo e o lucrativo) acaba por apresentar as incoerências deste processo em comparação à vida real. E o efeito deste descortinar da verdade gera frustrações, indignações, descrença, dificultando cada vez mais mudanças futuras. Criam anticorpos às mudanças.
Se quisermos fazer com que a sustentabilidade efetivamente penetre no tecido desta tribo precisamos realmente considerar que certos aspectos inerentes a ela não mudam e, se mudam, só no longo prazo que, segundo o relatório Estado do Mundo já mencionado, parece não termos. Teremos de nos utilizar de muita inteligência, criatividade, pedagogia e, por que não dizer, paciência para agir.
Cada tribo com a “sua” sustentabilidade
Se concordamos com o tópico anterior, a pergunta é: como fazer para que as empresas continuem sendo lucrativas e sustentáveis ? Como fazer para que as pessoas continuem consumindo, gerando empregos, impostos e os recursos naturais não sejam afetados a ponto de impedir a sobrevivência das espécies ? Como fazer para que todas as pessoas tenham condições dignas de vida ?
Ao falarmos de sustentabilidade com as empresas, precisamos então considerar a essência material destas, ou seja, seus resultados. Vejamos então, de forma um pouco mais detalhada e didática do que em meu post “Triple Botton Line”, como podemos utilizar a linguagem do lucro (dialeto nativo nesta tribo) como forma de adequar de maneira mais concreta a sustentabilidade nos negócios.
Lucro é a forma de rentabilizar o capital de alguém (acionistas e investidores). Lembre-se: todos nós queremos rentabilizar o recurso que temos com o menor risco possível. No passado, havia uma clara distinção entre os detentores de capital e os detentores de trabalho (eterno conflito capital/trabalho). No presente, essa distinção não é tão clara. Um fundo de pensão, por exemplo, é a soma das economias individuais cuja origem é o “trabalho” cuja destinação são investimentos para rentabilizá-lo, visando assegurar um futuro melhor para o contribuinte do fundo, o futuro pensionista. Um outro exemplo é quando você se dirige ao gerente de seu banco e lhe pergunta o que fazer com os recursos poupados. Você pergunta: “qual a aplicação que melhor rentabiliza com o menor risco ?” E ao aplicar os seus recursos no banco o destino que eles tomarão cairão, em maior ou menor medida, na mão do governo (títulos da dívida) e das empresas (via crédito bancário ou via compra de ações de empresas).
Mesmo quando você não aplica seus recursos, mas simplesmente os deixa depositados em uma conta corrente bancária, parte desses recursos vão para as operações de crédito (afinal, é assim que banco faz o seu negócio). Portanto, chega de nos iludirmos que os “acionistas” são os vilões da história apenas. Somos todos nós, a parte da população que tem renda e que se utiliza dos serviços bancários que alimentamos o sistema de forma direta, conscientes ou não.
A única exceção feita a este raciocínio são aquelas pessoas (uma boa parte da população mundial), que por não terem recursos e nem estarem incluídas no sistema bancário não participam desta roda que funde capital e trabalho em prol de lucro e desenvolvimento, novos sistemas produtivos, empregos, impostos etc. Até mesmo o Greenpeace, o WWF e outras organizações não governamentais de guerrilha contra as empresas fazem parte desse sistema pelo simples fato de se utilizarem de bancos para guardar, rentabilizar seus recursos ou pagar contas.
O lucro já foi estudado pela antropologia econômica e se manifesta inclusive em sociedades pré-capitalistas, ou seja, tribos (de verdade) que utilizam o escambo como base de troca de produtos e serviços. Ao analisar a troca de produtos entre duas tribos, foi identificada a presença do chamado “lucro social”, que é obtido a partir da diferença de tempo dedicado a produzir aquilo que se troca. Se um produto consome 10 horas de trabalho social para ser confeccionado e o outro consome 20 horas, a troca de uma unidade de um por uma unidade do outro confere lucro social de 10 horas de uma tribo sobre a outra.
O lucro como conhecemos hoje nada mais é do que a expressão de trocas entre tribos do passado em uma versão obviamente mais sofisticada. Sua essência está tão longínqua que remonta as primeiras trocas entre grupos de nômades da espécie humana e negá-lo é negar grande parte de nossa essência de vida em sociedade.
Poderíamos imaginar que o fato de ser algo tão presente em nossa história não significa que não possamos mudar. Afinal, tantas outras manifestações dos primórdios da humanidade foram modificadas para permitir a vida em sociedade, que esta poderia estar entre aquelas passíveis e necessárias de mudança na modernidade. Mas, mais uma vez, o processo seria longo e precisamos de uma estratégia que nos permita endereçar as questões da sustentabilidade hoje, até mesmo para subir os degraus nessa longa escada de evolução.
Externalidades – custos sociais e ambientais “escondidos”
“Externalidades, também chamadas economias (ou deseconomias) externas, cujos efeitos podem ser positivos ou negativos – em termos de custos ou de benefícios – gerados pelas atividades de produção ou consumo exercidas por um agente econômico e que atingem os demais agentes, sem que haja incentivos econômicos para que seu causador produza ou consuma a quantidade referente ao custo de oportunidade social. Na presença de externalidade, o custo de oportunidade social de um bem ou serviço se difere do custo de oportunidade privado, fazendo com que haja incentivos não eficientes do ponto de vista social. Portanto, externalidades referem-se ao impacto de uma decisão sobre aqueles que não participaram dessa decisão.
A externalidade pode ser negativa, quando gera custos para os demais agentes – a exemplo, de uma fábrica que polui o ar, afetando a comunidade próxima. Pode ser positiva, quando os demais agentes, involuntariamente, se beneficiam, a exemplo dos investimentos governamentais em infra-estrutura e equipamentos públicos.” Wikipédia, 2010
Em resumo, decisões que a empresa toma têm efeito em cascata a outras pessoas ou locais que não ela, para o bem ou para o mal.
Por exemplo, quando uma empresa opta por não investir na gestão de seus resíduos, estes serão objeto de custos futuros que onerarão o caixa do governo, ou seja, o custo-país. Por conseqüência, custo-país aumentando não tem outro caminho a não ser inseri-lo na arrecadação de impostos. Impostos mais elevados, aumentam os custos do processo produtivo e, por fim, diminuem a competitividade, reduzem a base de consumo, criando-se assim um ciclo vicioso de queda do desenvolvimento de longo prazo. Enfim, uma externalidade não se limita na conseqüência externa à empresa. Ela retorna para o negócio, travestida de perda de competitividade e de mercado.
Temos então que a empresa, consciente dos impactos negativos das externalidades geradas a partir de suas decisões, ao não agir no sentido de eliminá-las, aumenta seu resultado (lucro) e remunera assim os acionistas no curto prazo (resultado do trimestre, do ano), mas gera uma perda potencial de competitividade no médio/longo prazo para ela e para outros atores locais, que serão igualmente impactados negativamente. Como se pode notar, a relação de causa e efeito não é linear, mas sistêmica e nos dois sentidos (o que impacta é impactado).
Para que a empresa possa lidar com a sustentabilidade em seu negócio, a primeira questão que ela precisa responder é: quais as externalidades geradas por nossas decisões (modelo de gestão), modelo de operação/distribuição e produtos/serviços ?
Ao nos questionarmos sobre o que fazemos e suas externalidades, cairemos nas questões conhecidas ligadas ao consumo dos recursos naturais além da capacidade do planeta em renová-los, geração de resíduos e contaminantes dos recursos existentes e, do lado social, na distribuição de renda desigual, redução de carga tributária, perda de capacidade de renovação dos ativos sociais como um todo.
O que fazer então, nestes casos ? Quase sempre (para não dizer sempre), demanda investimentos. Por vezes esses investimentos geram, além da redução ou eliminação das externalidades negativas, algum nível de eficiência para o próprio negócio e se pagam (como por exemplo a redução do consumo de água e energia na maior parte dos casos). Mas por vezes o retorno desses investimento é negativo, gerando perdas que devem ser compensadas de outras formas para que o resultado global do negócio não seja prejudicado.
Então o que levaria uma empresa a tomar uma decisão de reduzir as externalidades negativas reduzindo seus próprios resultados ? A consciência da liderança de que ao não agir, seu negócio será impactado negativamente no longo prazo. Mas as lideranças são cobradas e reconhecidas pelo curto prazo, portanto qual o estímulo de agir em prol do longo prazo ? Duas alternativas: ou mudamos a lógica de cobrança e reconhecimento para que considere os resultados futuros nos negócios (como por exemplo ações da empresa com possibilidade de conversão apenas em anos posteriores) ou então a consciência da liderança de que este é o jeito correto de pensar no futuro do próprio negócio, da sociedade, de sua família. Os dois caminhos não são excludentes.
Observe que, olhada sob este ângulo, a sustentabilidade é um mix entre razão material e razão social. É razão em todas as dimensões e não altruísmo ou consciência coletiva solidária apenas como muitos apregoam.
Com isso tentamos desmistificar a idéia do “bom moço”, que ama as árvores e os animais e é todo politicamente correto. Todas essas “imagens” que muitos fazem acerca da sustentabilidade são figuras criadas pela falta de uma razão objetiva de como lidar com ela e tem sido muito mais prejudiciais ao avanço do processo. Quase sempre essas imagens são estereótipos criados a partir do modismo da própria sustentabilidade. Por exemplo, semana passada fui consultado por uma jornalista que me perguntava se eu conhecia um CEO de empresa de renome, que fosse trabalhar de bicicleta, que comesse alimentos orgânicos, que trabalhasse de voluntário em alguma causa e que tivesse uma gestão em prol da sustentabilidade. Entendo a jornalista, pois o que ela buscava era algum sinal de coerência entre ser e fazer na figura na liderança.
Não devemos cobrar essa coerência toda da sustentabilidade. Ela é nova demais para isso.
Volto a dizer que, se estivéssemos falando de sustentabilidade em uma religião, certamente ela se materializaria pela lógica do amor ao próximo. Se estivéssemos falando de sustentabilidade em uma ONG, ela se materializaria pela ética e se estivéssemos falando no legislativo ou executivo de uma unidade de governo, ela se materializaria pela lógica da “coisa pública”. Mas são, todas elas, frutos de uma mesma raiz que é a interdependência sistêmica onde tudo e todo são afetados pelas decisões individuais e coletivas, de forma orgânica. São, todas elas, a mesma e de variadas formas de expressão.
De volta a Babel
Em resumo, se trabalhamos em empresas e queremos discutir sustentabilidade a sério, não podemos nos esquivar (em essência), de compreender:
- As externalidades geradas inerentes aos seus produtos e serviços
- As externalidades geradas a partir do modelo de produção e operação
- As externalidades geradas a partir do modelo de gestão
Compreendidas as externalidades, devemos:
- Buscar quantificar o custo de sua eliminação, quando se tratar de externalidade negativa, pois esta é a parte que se incorpora anualmente ao lucro indevidamente e de forma prejudicial no longo prazo
- Buscar quantificar a externalidade em si, ou seja, o custo estimado para terceiros enquanto seu aspecto negativo se mantenha
- Apresentar a comparação entre um e outro, pois certamente o segundo será sempre maior que o primeiro e isso pode ajudar no processo de convencimento
Mensuradas as externalidades negativas e o custo para saná-las, devemos:
- Repensar o sistema de reconhecimento da empresa em função das externalidades negativas existentes, de modo a incentivar as medidas de médio e longo prazos
- Conscientizar as lideranças sobre os riscos econômicos e reputacionais em não agir
E se tudo der certo, chegaremos ao céu.
Se não der, será que o inferno nos espera ?
É isso aí. Vou ficando por aqui.
AERTON PAIVA
Aerton,
Como sempre, os seus textos sao um convite a reflexao. Entretanto, ha um aspecto fundamental do conceito de externalidade que escapa a sua analise. Quando a gente se falar, eu vou te dar dois exemplos nos quais essa perspectiva de externalidade, tao bem exposta por voce, nao e suficiente para gerar sinergias sustentaveis entre empresa e consumidor. Resumindo, o problema nao e conceitual, em essencia, mas de perspectiva. Ontologico, eu diria.
abracos,
Rogerio
p.s.: sempre achei que voce se enveradaria pelas sendas antropologicas
Rogério, estou curioso para saber. A propósito, por que não dá as dicas aqui mesmo, assim outras pessoas poderão ler também ?
Abs, Aerton.
Aerton,
Eu acho o seguinte: o grande desafio da gestao empresarial sustentavel, a meu ver, nao e somente a reducao (ou mesmo a eliminacao) de externalidades negativas ambientais do lado da oferta, como voce bem coloca. Polos eco-industriais e sistemas de simbiose industrial, os quais se enquadram no seu conceito de “reacao em cadeia”, sao bons exemplos nesse sentido – apesar do Brasil apenas engatinhar nessa area.
Contudo, sob a perspectiva da demanda, o conceito de externalidade assume uma dimensao distinta. Por exemplo, quando se analisam as externalidades produzidas por decisoes de consumo, muitas empresas deixam de aproveitar oportunidades nao somente no que tange a ganhos simbolicos (em termos de uma imagem mais positiva no campo da sustentabilidade), mas tambem no que se refere a ganhos de eficiencia relacionados a uma gestao (social) mais adequada das externalidades negativas engendradas pelo consumidor – basta imaginar as pegadas de carbono geradas por toda aquela montanha de plastico nos supermercados e fora dele.
Dai vem meu exemplo: quando o consumidor vai ao supermercado e nao leva consigo uma (ou mais de uma) sacola reutilizavel, esse consumidor produz externalidades negativas ambientais, as quais sao negligenciadas, equivocadamente, pela maioria das empresas no setor de varejo – mesmo aqui nos EUA.
Ainda que as externalidades negativas (ou o passivo ambiental oculto) nao sejam diretamente produzidas, neste caso, pelas empresas, e bastante obvio que esquemas de gestao sustentavel focados na comunicacao direta entre as empresas e o consumidor tendem a produzir resultados visiveis – mesmo a curto prazo.
A adocao exclusiva da via Pigouviana – ou a internalizacao dos custos gerados na producao do plastico ou do papel das sacolas, nao me parece ser a mais adequada nestes casos. Por exemplo, ate que ponto a cobranca de uma taxa sobre as sacolas nos mercados, como na Irlanda ou em Washington DC, reduziria o consumo de plastico na cadeia de consumo? Se a via Pigouviana nao resolve sozinha, como me parece ser o caso, entao as empresas devem, a partir das suas forcas criativas na area da gestao, buscar maneiras de engajar o consumidor em praticas mais sustentaveis. A via Pigouviana pode ser uma solucao transitoria, mas, sozinha, ela nao resolve o problema – ja que o consumidor pode internalizar o custo das sacolas e continuar produzindo os mesmos passivos ambientais. Alem disso, a sociedade vai ter que lidar com as pegadas de tiranossauro de carbono, bem como com os custos da gestao dos residuos industriais – porque, no frigir dos ovos, a sociedade paga a conta.
Tendo em vista a palidez dos programas de sacola reutilizaveis nas principais cadeias de varejo, os desafios pela frente sao imensos para a gestao sustentavel das cadeias de varejo.
Tudo esta perdido? Obvio que nao! E ai que entram as solucoes empreendedoras de empresas que buscam posicoes de lideranca na esfera da sustentabilidade…Aqui nos EUA, ha exemplos de empresas, como o Whole Foods, que lucram nao so simbolicamente com o seu programa de sacolas, mas apropriam-se de ganhos de eficiencia com a propria gestao do uso das sacolas. Sem contar que parte do lucros deste programa sao direcionados a iniciativas de empreendedorismo sustentavel – no sentido do Hart mesmo, alem do triple bottom line…Tudo e perfeito? Tambem nao. As sacolas que o Whole Foods vende sao produzidas na China!
Na mesma linha teorica, o caso Starbucks e um descalabro ambiental mais serio. Eu comento sobre ele nas proximas vezes…Gostaria de falar mais, mas ai eu me empolgo…e deixo a tese de lado
Abs,
Rogerio
Rogério, tudo bem ?
Concordo com suas colocações. Todavia, no exemplo das sacolas plásticas, a pergunta que fica é: quem é o gerador da externalidade ? O consumidor, que as utiliza ? O varejo que as compra e disponibiliza ? O produtor da sacola que vende para o varejo que disponibiliza para o consumidor ? Todos eles e nenhum deles, ao mesmo tempo. Todos eles pois se trata de uma cadeia de geração de externalidades negativas e nenhum deles pois um não se resolve em si sem o outro: o produtor precisa que varejo compre e este compra pois há alguém que usa.
No que se refere à internalização dos custos, não creio esse ser o caminho pois não se trata de internalizá-los, mas sim de eliminá-los. Já está mais do que provado que o consumidor atual não compra a sustentabilidade pagando mais, mas sim compra pagando menos. Se aceitamos o fato de que todos os excedentes (de resíduos, de energia consumida a mais, de água no mesmo caminho) se traduzem em perda de eficiência sistêmica, logo, a criatividade das soluções e de novos materiais entram na lógica de melhorar a eficiência e reduzir ou eliminar as externalidades negativas.
É isso
Abs
Aerton
Fala Aerton.
E sempre bom conversar com voce. Para fechar: quando a gente nao idenfitica a causa de um problema, fica dificil resolve-lo. Por isso a gente trabalha com conceitos de forma a “isolar” relacoes sociais empiricamente. No caso das sacolas, voce tem toda a razao. Concordo em genero, numero e grau. De todo modo, eu ficaria com a primeira resposta: a externalidade e gerada pelo todo da esfera de producao e consumo. Se ninguem gera externalidade negativa, a conclusao logica seria a sustentabilidade plena do planeta. Vamos, entao, a segunda alternativa.
De fato, o todo da cadeia de producao gera externalidades. Entretanto, o conceito, pelo menos na esfera das politicas publicas, tende a aplicar-se as decisoes finais de producao (e.g. quando uma fabrica polui) ou consumo (e.g. o imposto, que eu chamei de Pigouviano, sobre as sacolas). Claro que a industria petroquimica produz externalidades negativas, no caso do plastico. Contudo, no caso das sacolas, o problema nao e a decisao de producao, mas as decisoes de consumo – reforcadas pelas praticas insustentaveis do consumidor. Voce nao pode impedir a fabrica e plasticos de produzir mais sacolas, ou os supermercados de fornecer as sacolas. Mas e possive, sim, engendrar solucoes de comunicacao corporativa que foquem na relacao entre consumidor e empresa, de modo a reduzir o impacto ambiental da cadeia de producao e consumo.
Exemplos? As sacolas do Whole Foods, por exemplo, sao sim feitas com material que reduz o impacto ambiental – o papel e totalmente reciclado e o plastico foi abolido das sacolas nao-reutilizaveis. Eu te mostro tudo isso com mais detalhes se a gente se encontrar no Brasil. Alem disso, as sacolas sao instrumentos de comunicacao corporativa para a sustentabilidade: mensagens como “voce sabia que uma sacola de plastico demora 1000 anos para degradar-se?” ou “Eu era uma garrafa plastica”, nas sacolas reutilizaveis. Enfim, o foco e o consumidor, e creio que tem dado certo. O WF e so um exemplo entre varios.
Tenho duvidas sobre a afirmacao que o consumidor nao paga a mais por um produto mais sustentavel. Depende, eu acho, do contexto cultural no qual o consumidor esta enraizado – para ser mais antropologico. Depende, tambem, do contexto de renda, educacao, e, mais amplamente, de relacoes sociais de uma regiao ou pais. Exemplo. Poderia citar o Whole Foods, o exemplo mais obvio.
Mas vamos ao Tesco. Ha uns dois ou tres anos, o Tesco, na Irlanda e Inglaterra, criou uma etiqueta de “pegadas de carbono” nos seus produtos de horti-fruti – e assim que fala?
Outro exemplo sao as etiquetas que avaliam a sustentabilidade das cadeias produtivas, como a qualidade dos eco-sistemas dos peixes vendidos no mercado. Ainda que esses produtos sejam mais caros, o caso obvio dos organicos, o consumidor paga por isso porque a sustentabilidade passa a ser um valor simbolico introduzido a cultura da reproducao da vida individual e familiar. Houve uma revolta na Inglaterra quando os consumidores do Tesco descobriram que os produtos organicos eram importados do Quenia…pegadaco-aco de Carbono
Do outro lado, os quenianos sofreram porque temiam perder mercado – para nao mencionar a contradicao de produzir e exportar alimentos num pais como o Quenia, onde a populacao passa por necessidades basicas.
Mas, claro, tudo isso depende do contexto cultural.
Fechando, acho que o imposto de Pigou, visando a internalizacao dos custos, pode ser uma via provisoria para a conscientizacao do produtor e consumidor. Mas isso dependeria de comprovacoes empiricas, via survey quali ou econometria, que eu nos nao temos, eu acho (vou pesquisar).
Sempre bom debater com voce. Voce e parte disso, certamente. Se voce nao desafiasse os meus neuronios, nao estariamos debatendo hoje
Abs,
Rogerio