Sustentabilidade: uma aula com Ditão

Hoje, dia de jogo do Brasil, vou de um “causo” da consultoria no blog.

Estive, entre os dias 22 e 24, com uma equipe de pouco mais de 20 executivos da Natura em mais uma expedição de Brasileirantes no Vale do Ribeira.

Incrível que, depois de ter voltado da Holanda, conferência do GRI, um pouco cansado de tanto ouvir e pouco ver feito, eis que retorno daqui do lado de São Paulo com a certeza de que a sustentabilidade não é complexa.

É uma questão de coragem, de querer fazer.

São 07:30hs da manhã de 22 de junho de 2010. Estamos todos, nós de Brasileirantes e pessoas da Natura, reunidos em Itapecerica da Serra, sede da empresa. Em roda, conversávamos sobre o que nos esperava pelos próximos dias. Da Natura, um grupo de pessoas de todas as áreas: fiscal, financeiro, suprimentos, educação, sustentabilidade, relações institucionais, vendas, produtos, embalagens.

Havíamos passado as semanas anteriores em intenso planejamento: analisamos a agenda estratégica de sustentabilidade da empresa procurando entender os temas materiais. Discutimos também (intensamente) com a equipe de educação, sobre essa nova pedagogia “aberta” de Brasileirantes, sobre a necessidade de não criarmos dinâmicas e estruturas planejadas de reflexão, deixando as pessoas e o contexto se manifestarem por conta própria.

Eis que lá estávamos, todos preparados para começar algo que, quem nunca houvesse participado, jamais saberia na prática o que viria pela frente. Entramos no ônibus, confortáveis, e começamos o trajeto com o filme “Janela da Alma”, para começar a abrir os sentidos de todos nós.

O roteiro desta expedição é muito interessante: do PETAR, onde a preservação e o desenvolvimento econômico estão em constante contradição, passando pelos históricos quilombos paulistas de Ivaporunduva, André Lopes e Mandira, terminando com uma excelente conversa com a Rede Cananéia, plataforma que busca sinergizar os trabalhos do terceiro setor na região. Em meio a estes pontos de contato, roda de viola regada à quentão e vinho quente, além de uma deliciosa galinha caipira, tudo orgânico, e uma apresentação de fandango, onde dançamos e cantamos com jovens e velhos, como se fossem todos da mesma idade e da mesma sala de aula.

O Vale do Ribeira é uma região muito interessante, sendo hoje o que praticamente resta de Mata Atlântica no estado de São Paulo, além das historias de conflito entre preservação ambiental e respeito à história dos que ali residem. Destas muitas contradições que nosso parceiro, o Instituto Socioambiental (ISA), está habituado a conviver, tiramos o sumo do que queríamos discutir para elaborar o roteiro: sustentabilidade.

Até aí nenhuma grande novidade para quem já “brasileirantou” como nós da expedição. Parecia ser, para nós acostumados a isso, mais 3 dias de apresentar aos “urbanoides” que existe algo além dos shoppings e dos congestionamentos, dos protocolos internacionais e dos pactos de sustentabilidade: algo de concreto, que vive da produção local e da interação com o mundo econômico da grande escala.

Mas este post não é para falar do Brasileirantes. É para falar de uma figura que conhecemos, o Ditão, líder da Comunidade Quilombola de Ivaporunduva. Chegamos na comunidade por volta de 18:00hs e fomos recebidos na igreja do século 19, sentamos nos bancos tradicionais e lá estavam, à nossa frente, Ditão e  “Bico”, um jovem quilombola muito politicamente bem articulado.

Contaram sua história, que haviam (como outros) vivenciado o fato de serem tidos como “ilegais” pela simples demarcação de um parque, cujo processo relegou centenas de anos de história daquele povo, que ali viveu do extrativismo e que, de uma hora para outra, foram jogados à ilegalidade das políticas ditas “públicas”. Foram proibidos de fazer suas roças, foram proibidos de cortar o palmito, foram proibidos de pescar. Tiveram de se mudar e deixar para trás toda uma vida de gerações. Desistiram ? Não. Até porque desistir não é da estirpe desse povo, afinal eram quilombolas e traziam em sua história uma enorme carga genética e social de sobreviver apesar de tudo. São teimosos como estes que desafiam Darwin, pois não se deixam quedar pela lei da seleção natural. Lutam, até a última gota de esperança, pelos seus direitos.

E dessa luta que tem em seu ponto alto no Brasil a Lei Áurea e que tem um “reviver”  com a demarcação do parque, na década de 50, a mais nova versão de luta desse povo: a convivência entre o urbano e o rural, entre a preservação e a produção, entre o tradicional e o moderno. E ali estavam, Ditão e Bico a nossa frente, o antigo e o novo, falando no mesmo pano de fundo, a imagem do padroeiro da comunidade que acolhe o afro e o católico.

Em meio a essa roda de conversa que pareceria mais aula de história, eis que pergunto a Ditão e Bico a razão de ainda não estarem negociando com o Pão de Açúcar a banana orgânica e certificada que ali produzem. E Ditão, com aquele olhar que olha no fundo, pensou, riu, e saiu com essa: “sabemos como eles são. São grandes, vão nos pedir volume de produção e isso não será bom, pois teremos que ampliar a área plantada, vai ser ruim para a comunidade no longo prazo”. Questionei sobre o retorno financeiro disso, se não seria bom para a comunidade e ele, sem pestanejar: “não precisamos, temos tudo o que queremos e mais seria desnecessário”.

Olhei ao redor. Todos ficaram parados, silenciosos, se olhando. Até que um deles resolveu bater palmas e, lentamente, o eco daquelas palmas solitárias foram se avolumando pelo salão da igreja, juntando-se a outras que timidamente iam surgindo, inclusive as minhas. Mas é correto dizer que a cada palma para o Ditão uma martelada em nossa consciência arrogante de quem tudo sabe.

Ditão e Bico não devem ter entendido muita coisa.

Não preciso dizer que o caminho da igreja para a pousada que nos abrigou naquela noite no quilombo foi uma surra mental. Sem exceção, todos nós, os urbanos executivóides, com mestrado aqui e doutorado acolá, sabedores das mais de 900 perguntas do ISE e do GRI, participantes de conferências nacionais e internacionais, detentores do saber e do poder material, fomos colocados no chinelo pelo Ditão, um típico caipira quilombola do interior paulista que nos deu a mais dura aula de sustentabilidade, sem nos dirigir uma crítica sequer.

A equação é matemática e simples: não é sustentável crescer sem limites. Os recursos naturais são finitos. A população não pára de crescer. Se de um lado temos recursos finitos, do outro temos pessoas que consomem. O ponto deste equilíbrio talvez esteja na utopia do Ditão, que para ele de utópico nada tem, mas soa assim para nós. Precisamos estabelecer um limite ou nos reinventar por completo com o uso em massa de materiais e recursos renováveis.

“Para nós está bom. Mais, é desnecessário” – Ditão.

É isso aí. Durma com esse barulho, amigo/a.

AERTON PAIVA

www.gestaoorigami.com.br

aerton.paiva@gestaoorigami.com.br

4 Responses to “Sustentabilidade: uma aula com Ditão”

  • [...] Leia o restante do post aqui. [...]

  • Derdos:

    e acima de tudo controlar nossa ganância, pois é isso que gera consumo exagerado. Parabens à todos.

  • Que beleza… abrir os olhos, os ouvidos e o coração para enxergar o mundo que criamos – e as necessidades que nos colocamos – de OUTRA forma. Buscar o simples, onde mora a felicidade.
    Que delícia de texto Aerton, deu pra sentir a experiência de aprendizagem. Brasileirantes é isso aí!

  • Samuel:

    “Depois que a gente vê, pega mal não acreditar”

    Seja no Vale do Jequitinhonha, na Amazônia ou no Vale do Ribeira os exemplos são constantes. Ao ler o teu texto, voltei no tempo e relembrei a roda no Sitio Maravilha na Expedição Veredas Sertanejas há um ano atras. Esses momentos redirecionam a nossa forma de ver o mundo e acabam provocando mudanças no nosso dia a dia. Muito bom !!!!

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