Simplificar para encontrar a essência

Em meu último post, comentei que estaria participando da Conferência Internacional do GRI que ocorreu no final de maio na Holanda. Estive lá. Demorei um pouco a escrever o post porque gostaria de ver, primeiramente, o que sairia a respeito na mídia e em outros blogs, mas como não sou repórter e não tenho preocupação com “furos”, li tudo o que escreveram e resolvi seguir por uma linha menos repetitiva.

Não vou falar que a maior delegação era a brasileira. Também não vou falar que os prêmios vieram em grande parte para os relatórios brasileiros. Isso você já deve estar sabendo. Também não vou falar sobre as palestras oficiais, ao contrário, prefiro comentar sobre o que conversei com pessoas que lá estavam, o que estavam achando de tudo aquilo, para onde as coisas deviam caminhar a partir de então.

O ponto central de tudo o que percebi não apenas na minha estada na Holanda para a conferência, mas também sobre o que vem acontecendo coincidentemente por esses dias aqui no Brasil (muitas conversas com Fundos de Pensão e analistas de mercado de ações) está ligado a apenas um tema: a real utilidade dos relatórios. Exemplos de onde recebi inputs:

  • Ouvi de uma das participantes o seguinte: “o twitter impacta mais o nosso negócio do que os relatórios. Um cliente que posta algo nessa rede social movimenta mais nossa organização do que as 200 páginas de nosso reporte”
  • Ouvi de um analista de mercado o seguinte: “os relatórios não me ajudam a definir os impactos no preço de uma ação de uma empresa. Ela pode gabaritar no relatório e perder mercado, estar exposta a riscos que jamais seriam mencionados de forma transparente por ela própria. O caso recente da BP nos EUA mostra claramente isso: era a empresa modelo de sustentabilidade e suas ações, assim como sua reputação, vieram abaixo com o acidente do vazamento de petróleo. O quanto o fato tenha sido realmente um acidente ou negligência, só as investigações dirão e olhe lá.”

Pois é… junte-se a isso tudo o que escrevi no meu último post falando sobre a carga de energia colocada nos reportes e o fato do baixo índice de leitura deles.

Estamos, a meu ver, muito próximos de um ponto de ruptura desses instrumentos de disclosure voluntários. Afirmo, com muita tranqüilidade e segurança que esses instrumentos, da forma como estão estruturados hoje, estão com seus dias contados. Não me refiro apenas ao GRI, mas sim a todos os demais e similares como ISE, DOW JONES. E a razão é simples: tomam muito esforço para pouco resultado concreto.

Obviamente que tais instrumentos cumpriram (e muito bem) seu papel até então, pois chamaram a atenção para diversos aspectos que estavam outrora na obscuridade. Mas precisamos todos reconhecer que é chegada a hora de darmos um novo salto de utilidade para todo esse esforço em relação ao que realmente importa à sociedade no contexto da sustentabilidade.

ONE PAGE REPORT

Que tal imaginarmos um relatório de uma página, frente e verso ? Simples, objetivo, pragmático, comparável, quantificável, auditável ?

É factível que tenhamos a possibilidade de produzir relatórios de sustentabilidade em uma página. Já conseguimos fazer isso com os balanços das empresas que resumem todo o universo das transações financeiras a uma página de jornal. Milhares de informações geradas ao longo dos 360 dias operacionais do ano fiscal resumidas em categorias comparáveis e correlacionáveis entre si e entre empresas.

O caso das informações de sustentabilidade não deve e nem pode ser diferente. Aos que afirmam que o tema trata de muitas questões subjetivas (quali e não quanti), só tenho a responder que enquanto aceitarmos passivamente esta questão, ficaremos continuamente andando na esteira, ou seja, gastando energia e parados no mesmo lugar. Creio que não é disso o que estamos precisando.

O que interessa realmente saber das empresas é sua contribuição, positiva ou negativa, para as questões críticas da sustentabilidade em suas operações e em seus produtos. As demais informações são alegorias e adereços. O verdadeiro enredo se dará na medida que focarmos no que de fato importa para o processo de tomada de decisões dos diversos atores sociais (clientes, consumidores, acionistas, governos, terceiro setor).

Peguemos alguns exemplos:

  • Ao analisarmos uma empresa siderúrgica (e sua cadeia de produção e consumo), o que precisamos realmente saber sobre seus impactos sociais, ambientais e econômicos ? Sabemos que são grandes consumidoras de energia e água, utilizam carvão vegetal e tem, à montante a mineração e à jusante a aplicação de seus produtos em diversos setores da economia que se incorporam a outros produtos em cadeia. Portanto, quais as informações efetivas que precisamos saber de uma empresa deste ramo ? A quantidade de energia por fonte utilizada por volume produzido ? O volume de carvão vegetal adquirido de fonte controlada ? O que mais ?
  • Ou então, ao analisarmos um banco, sabemos que são três os grandes blocos de informações a serem avaliadas: as operações de crédito (desde microcrédito até as operações de Project Finance), as operações ligadas a investimentos (da poupança aos fundos) e as informações relativas a meios de pagamento. No caso do crédito queremos saber como os recursos são alocados por setores da indústria ou projetos considerados críticos em relação ao risco socioambiental. No tocante aos investimentos, como o banco tem negociado papéis de empresas por nível de impacto socioambiental e assim por diante.

Informações que com certeza não interessam são as relativas ao seu modelo de governança, aos seus projetos de investimento social privado e às suas premiações e participações como patrocinador de iniciativas pró-ambientais ou sociais. Não que não sejam importantes, mas é que estas informações criam uma “nuvem” ao redor daquilo que nos interessa realmente saber: o impacto do negócio e como as externalidades não estão sendo consideradas na precificação, ou seja, estão se acumulando no “restos a pagar” da sociedade.

Logo, se há que nos esforçarmos para aumentar a transparência, que esta fique restrita aos efetivos impactos que precisam ser revertidos ou potencializados.  Se há que se colocar energia, que esteja na mobilização das principais empresas e especialistas dos diversos setores econômicos para debaterem quais são as informações que efetivamente nos permitam comparar as empresas entre si e seus avanços efetivos na sustentabilidade.

Neste sentido, penso que precisamos renovar. Resta saber agora quem dará o primeiro passo nesta direção. O World Business Council for Sustainable Development ? O GRI ? O ISE ? O DOW JONES ? Sua empresa ?

Quem ?

Estes movimentos de mudanças de direção não acontecem sem uma certo nível de organização, de mobilização. Mas o primeiro passo para que isso ocorra é a tomada de consciência acerca desta situação. Para ser sincero, não sou muito otimista em relação a isso, na medida em que vejo as instituições organizadas como as citadas envolvidas em um processo de justificarem-se a si próprias (afinal, elas também têm um contas a pagar e a receber). É complexo para elas aceitarem a necessidade de uma mudança tão radical de direção.

Resta portanto as empresas. Talvez a estas caiba dar o primeiro passo, chamando para a roda as outras empresas do mesmo setor (e cadeia) em suas associações de classe, como por exemplo a FEBRABAN para os bancos, a ABQUIM para as indústrias químicas e assim por diante. Mas neste cenário confesso que sou também pouco otimista, dado que a agenda de sustentabilidade nas diversas entidades de classe (com raras exceções) não tem se mostrado como uma real prioridade em comparação aos demais temas de defesa de seus interesses.

O que a meu ver não podemos, é ficarmos passivos, desnorteados, reagindo como manadas à indústria dos relatórios, ou seja, fazendo porque os outros fazem.

Mas a luz no final deste túnel é que este esforço em buscar o eixo determinante da sustentabilidade já tem sido adotado por algumas empresas, isoladamente. O Banco HSBC publicou seu último relatório global de forma simples, sem fotografias, 25 páginas, dando claramente a importância aos temas identificados em seu painel de stakeholders. Ainda não está no conceito discutido acima, mas é claramente um primeiro exemplo de relatório neste caminho. Você poderia imaginar que este relatório simples estaria nestas condições por ser divulgado por uma empresa iniciante em sustentabilidade (como é comum nestes casos), mas não: o HSBC é um dos bancos mais avançados em termos globais no tema (caso queira saber mais porque, consulte o último relatório da BankTrack).

A questão não é simplificar sem perder a essência, mas ao contrário, é encontrá-la.

Pense nisso.

É isso. Vou ficando por aqui.

AERTON PAIVA

www.gestaoorigami.com.br

aerton.paiva@gestaoorigami.com.br

5 Responses to “Simplificar para encontrar a essência”

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