Analistas: vocês têm a força !

Há algum tempo ouço afirmarem que empresas sustentáveis têm melhores resultados e portanto, aquelas que tem seu capital aberto, tendem a ter suas ações em bolsa valorizadas. Ocorre que também ouvimos, com quase a mesma freqüência dos profissionais que analisam estes mesmos mercados, que não existe ainda uma comprovação estatística definitiva a esse respeito.

O mesmo acontece quando discutimos o assunto com profissionais que analisam risco de crédito de empresas: eles ainda não conseguiram comprovar que a sustentabilidade reduz riscos e portanto igualmente o valor final a ser cobrado no pacote de preço para as operações.

Em resumo, a questão (do ponto de vista das empresas) é mais ou menos a seguinte: se sustentabilidade demandará investimentos de nossa parte, qual o retorno para o nosso negócio ? E, mais especificamente, quando se trata do relacionamento da empresa com o mercado financeiro, a questão fica ligada a: o valor de mercado de nossas ações terão um upside ? Ou, do lado do crédito: os custos financeiros das operações de crédito serão menores ?

É ai que centra o tema deste post. Apesar dele ser bastante direcionado a analistas de crédito e aos analistas de renda variável, ele pode ser igualmente interessante aos profissionais de finanças das empresas e, para os mais curiosos, a todos os que trabalham com sustentabilidade dado que de uma forma ou de outra pode ser mais um conjunto de argumentos para utilizarem ao longo da inserção do tema em suas empresas.

Partamos de uma afirmação: é verdade dizer que, atualmente, não há uma correlação aceita sobre estes temas, conforme a dúvida colocada no início do post. Mas isso não significa dizer que a discussão está encerrada neste momento.

Peguemos dois exemplos recentes para nossa análise: o caso da BP com o vazamento de petróleo e o caso da Nestlé com o óleo de dendê.

BP – Não é só óleo que está vazando… o patrimônio também

Enquanto escrevia este post, consultei as notícias recentes sobre os impactos para a empresa até agora. Veja uma notícia de ontem em O Globo:

Matéria sobre a BP, O Gobo Economia, 10/06/2010

Observe que, por mais complexa que seja a determinação do valor de uma ação (em termos de futuro) para um leigo no assunto, dois fatos são contundentes: estão na menor cotação dos últimos 13 anos e as ações já caíram mais de 40% até agora. Este é o valor presente, dado pelo mercado. Obviamente que este valor pode, no futuro, se recuperar, mas tudo dependerá de como a empresa e o mercado se comportarão. Há portanto muitas incertezas de futuro no momento e qualquer palpite ou projeção trará consigo tais incertezas em termos de preço da ação.

Observe agora o outro ponto importante: a empresa já teve um custo de US$ 1,43 bilhão e nada indica que esta cifra já esteja estancada. Quanto mais irá custar ?

Por fim, mas não menos importante, quais serão as conseqüências para a BP junto ao mercado (marca, consumidores, vendas), junto ao governo americano (multas, ressarcimentos) e nos futuros investimentos em segurança (incremento) ? Afora, ainda, a questão central: com as novas gerações de veículos elétricos, híbridos e de combustível renovável, o que acontecerá com a pressão de demanda deste segmento nos próximos 20 anos ?

Observe que em nenhum destes casos futuros, estamos falando de ganhos. Estamos sempre falando de perdas e a questão não é se a BP terá ganhos ou perdas, mas sim, qual será o tamanho dessa perda não esperada até antes do acidente e daqui para frente, independente do acidente.

E a propósito, era considerada uma das empresas modelo em sustentabilidade até então, uma das mais avançadas e com pesados investimentos neste campo.

Você poderia se indagar se este caso não é muito extremo e que sua empresa ou as empresas que você costuma avaliar jamais estariam expostas a riscos de tamanha magnitude. Mas peguemos um outro caso, menos extremo se comparado a este.

Nestlé, Greenpeace, Óleo de Dendê e as florestas tropicais da Malásia

Meu colega de trabalho e sócio na Origami, Renato Guimarães, publicou recentemente em seu blog os detalhes deste caso. Em resumo, trata-se de uma matéria-prima utilizada pela Nestlé que virou alvo do Greenpeace e de toda uma rede social contra a empresa. No bojo do protesto, “Nestlé, dá um tempo”.

Não vou entrar nos detalhes da trama (se quiser, leia o blog do Renato), mas vou direto ao ponto: uma matéria-prima que por diversas razões tem seu uso questionado em função dos impactos de seu processo de produção junto a fornecedores em diversos países. Certamente que a empresa, para atender às demandas colocadas por este segmento da sociedade, deverá revisar suas políticas, normas e processos internos e, em alguma medida, as tais externalidades deverão ser incorporadas a seus custos. Se o consumidor pagará a conta, ninguém sabe ainda.

Por trás deste caso está a máxima de que não é sustentável o lucro quando, para sua obtenção, geram-se passivos sociais, ambientais e consequentemente econômicos para os futuros cidadãos (inclusive, consumidores).

Para que a Nestlé se adéqüe às demandas colocadas, ela certamente deverá incorporar a seus custos esses passivos atualmente desconsiderados e, para manter suas margens no produto, deverá incorporá-los ao preço final. Se o mercado não estiver disposto a pagar por este preço, perderá vendas, participação de mercado e verá seus resultados neste produto caírem em alguma medida. Se o mercado estiver disposto, assunto resolvido. Caso queira continuar com as margens anteriores, deverá buscar ganhos de eficiência e, para tanto, necessitará de mais investimentos. Não tem para onde correr.

E isso não apenas no produto em questão, mas em toda a cadeia de produção que se utiliza dessa matéria prima. Sem falarmos no intangível da imagem: nenhuma empresa quer ser alvo (desta forma) dos noticiários, pois não se sabe quais os efeitos colaterais dessa exposição negativa. Por segurança, é melhor não arriscar. Ninguém quer virar uma nova Nike do passado.

De volta aos analistas

Se você for (ou fosse) um analista destas empresas, como estaria precificando o valor das ações ou então considerando o risco de crédito ?

Claro é que, por ser um processo de julgamento e de análise de impactos futuros, não teríamos hoje uma unanimidade de opiniões. Alguns considerariam não haver nenhum impacto no longo prazo, outros não teriam total certeza mas colocariam estes temas no radar de acompanhamento e outros, seja por terem informações mais detalhadas ou então perfil mais conservador, optariam por considerar estes fatos como risco de perda. Talvez a unanimidade ocorresse apenas no curto prazo, onde a grande maioria consideraria não haver impactos significativos.

O fato é que esta diferença de análise seria maior no caso da Nestlé do que no caso da BP, dado que o impacto presente deste último é maior e mais perceptível do que o primeiro. Mas, mesmo assim, haveria diferenças na análise.

Embora muito tenha se discutido sobre qual a matemática para se buscar correlações entre sustentabilidade e impactos financeiro-econômicos, vejo que estamos deixando de discutir o principal: o poder que estes profissionais têm em suas mãos e talvez não se dêem conta disso com clareza e magnitude compatíveis com a realidade.

Estávamos em um cliente no ano de 2008 tentando, há mais de um ano, convencê-lo acerca da substituição de uma matéria-prima pelo fato de seu uso já ter sido banido em alguns estados americanos, pelo fato de a maior rede americana (WalMart) já ter se manifestado contra seu uso e o mesmo acontecendo com diversos distribuidores da Comunidade Européia.  Já existia uma substituta para a primeira, fabricada no Brasil, mas pelo fato da escala ainda não ter atingido os níveis adequados, seu preço era 40% maior, o que na composição do preço final do produto acabado o incremento girava entre 3% a 5% para o consumidor.

A empresa resistia muito em efetivar a alteração alegando que perderia mercado. Ocorre que em uma das teleconferências de resultado desta empresa, um analista (que pela voz parecia ser jovem), depois de todas as perguntas tradicionais que os analistas fazem questionou a empresa sobre este caso. O RI da empresa não sabia o que responder, e portanto sua resposta não transmitiu segurança aos demais que ouviam. No trimestre seguinte, esta questão foi uma das primeiras a serem colocadas pelos analistas e tomou grande parte do tempo da pauta prevista. Isto porque afetava todos os produtos da empresa em escala global. Logo, passou a ser considerado um ponto muito critico para os resultados do negócio.

O que não havíamos conseguido em 1 ano resolver, foi decidido 2 dias depois da segunda tele-conferência e, neste caso, talvez o primeiro analista a colocar a questão (o possivelmente mais jovem) sequer saiba que teve ele, mais do que a consultoria, mais do que o WalMart, mais do que os principais distribuidores da empresa, a força para fazer a empresa tomar uma decisão em pouco espaço de tempo.

É este o ponto que quero chamar a atenção. A sustentabilidade é algo que não anda apenas por determinações legais, imposições, protestos. Anda também a partir de perguntas, a depender do tipo de pergunta, por quem é feita e em que fórum.

Penso que os analistas não conseguem imaginar o poder que dispõem para serem indutores de um novo modelo de desenvolvimento. Em seu papel de questionar os resultados presentes e futuros de uma empresa, trazem consigo o poder dos acionistas, indiretamente. Eles têm suas organizações financeiras por trás, concessoras de crédito (quase sempre) e, portanto, de recursos para o financiamento da atividade produtiva. Eles têm espaço na mídia, são lidos e relidos, replicados. Eles fazem parte direta ou indiretamente das agências de risco.

Esta constatação não é nova. Do lado do mercado de investimentos, o PRI (Princípios para o Investimento Responsável) e do lado do crédito com os Princípios do Equador, estas forças já foram identificadas. Todavia, elas precisam agora serem incorporadas por estes profissionais. E talvez este seja nosso grande desafio: fazê-los perceber, facilitar este processo para que incorporem estas perspectivas em suas análises e questionamentos junto às empresas.

Vale a pena discutir com a APIMEC e a AMBIMA sobre como isto poderia ser melhor estruturado. Mas, mesmo assim, independentemente destas entidades, os bancos, as corretoras e as agências de risco poderiam começar a focar mais nestes profissionais, dando-lhes os instrumentos conceituais, técnicos e motivacionais para que venham, de forma mais rápida, a incorporar tais perspectivas em suas análises e interações com as empresas.

Em resumo, mais do que a matemática, a postura. Esse, a meu ver, é o caminho para realmente mudarmos de patamar neste campo.

É isso. Vou ficando por aqui.

AERTON PAIVA

www.gestaoorigami.com.br

aerton.paiva@gestaoorigami.com.br

4 Responses to “Analistas: vocês têm a força !”

  • Os analistas tem a força? Suas análises não servem para influir na mudança da cultura da empresa. Servem apenas para orientar a oscilação do stock market e influem muito pouco ou nada no pensamento estratégico que pode servir de “seguro” no embasamento do negócio, ou seja, pensar no impacto de sua atuação e no impacto de seu negocio na sociedade e no mundo. Mudanças acontecem muito mais por reação a grandes catástofres do que pela consciência de quem dirige as empresas, e mais por influencia de analistas de mercado. Por exemplo no caso da BP, o presidente no inicio menosprezou o tamanho do estrago no planeta, na reputação da BP e agora fala “I want my life back.” Ele quer a vida de volta? Eu quero o Golfo de volta. Ele estava preocupado com isto há 2 meses atrás? Nein. O que os analistas poderiam ter feito no passado, thinking in retrospect? Nicas de pitibiribas. É isso aí.Seu post é só um wishful thinking e não uma realidade. Pronto, falei!

    • Renata, como vai ? Continuo acreditando no poder desse publico como algo maior do que os demais. Em relacao a todos fazerem a direnca, isso sim eu acho wishfull thinking, pois temos batido nesta tecla ha anos e pouco ocorre. O pipoqueiro nao esta nem ai, o consumidor um pouco menos. Se existe uma agulha a ser tocada nessa acumpuntura, creio que eh a agulha dos recursos financeiros. O resto, eh resto.

      A percepcao de quem nao esta habituado a acompanhar as demonstracoes de resultados trimestrais leva a imaginar que analistas de investimentos e credito palpitam apenas sobre preco, compra e venda de acoes, etc. Mas nao eh assim que funciona. Sugiro que acompanhe algumas destas, ou se quiser, escolha uma empresa de capital aberto, consulte o site de relacionamento com investidores e ouca la as webcast gravadas. Vc percebra que pouca ou nenhuma interpelacao sobre temas criticos da sustentabilidade sao feitos atualmente. Portanto, se aceitamos que o consumidor tem poder por comprar os produtos da empresa, temos igualmente que aceitar que estes profissionais tem esse poder, pois nao apenas orientam sobre compra e venda com base em riscos e oportunidades futuras, mas adicionalmente tem o poder de falar diretamente com o epicentro de uma empresa, ou seja, o mundo financeiro.

      Bjs e vamos ver se marcamos logo nosso jantar. Faz tempo que nao nos vemos.

  • On the other hand, todo mundo faz a diferença. Assim, os analistas fazem a diferença, os consumidores fazem a diferença, os dirigentes fazem a diferença, o pipoqueiro na porta da fábrica faz a diferença, as crianças fazem a diferença. Por isso os analistas que fazem a diferença Todos nós fazemos. Pronto, falei de novo, agora com a minha veia otimista. Manda ver, Aerton,

Leave a Reply

Receba os artigos por email

Digite o seu email: