Construção em cadeia

Varejistas são denunciados como corresponsáveis pelas práticas de trabalho análogo ao escravo de seus fornecedores e subcontratados.  Indústrias são forçadas a verticalizar a produção devido à incapacidade de seus fornecedores em investir em gestão ambiental, combater pragas e adaptar seus processos produtivos aos efeitos das mudanças climáticas.

Estes são apenas alguns exemplos recentes que ilustram as limitações de modelos de gestão restritos à operação própria das empresas e apontam, de forma clara, para a necessidade de se pensar e realizar a sustentabilidade de forma sistêmica, considerando e envolvendo todos os elos da cadeia de valor.

Essa reação em cadeia, que transfere de fornecedores para compradores a responsabilidade legal e estratégica pelo endereçamento de pressões socioambientais, é a mesma que possibilita as empresas a atuar além da mitigação de riscos, e se tornar agentes catalisadores e indutores de melhores práticas.

Se no curto prazo as práticas irregulares dos fornecedores impõem riscos legais e reputacionais severos, é a capacidade das empresas em transformar a relação com seus fornecedores em um processo de co-construção que possibilitará a elas construir relações duradouras e capazes de endereçar seus desafios de longo prazo. A resposta à Política Nacional de Resíduos Sólidos e o crescimento das metodologias de análise de ciclo de vida exemplificam claramente a incapacidade das empresas em transformar isoladamente uma realidade. Além da participação de consumidores, recicladores, governo e outros atores da sociedade civil, é o envolvimento fundamental dos fornecedores que garantirá o desenvolvimento e a implantação de tecnologias e processos menos intensivos em recursos naturais, renováveis e geradores de impactos econômicos positivos.

Para isso, o primeiro passo de qualquer empresa interessada em co-construir é compreender claramente quais são os temas socioambientais específicos de sua cadeia de valor e como cada um destes temas se relaciona com seus fornecedores. Sustentabilidade é um termo amplo, que só faz sentido se desdobrado em desafios concretos, como a erradicação do trabalho infantil ou a preservação de corpos hídricos.  É este direcionamento claro e específico que possibilita a construção de diálogos legítimos. Se o fornecedor não perceber que um certo tema socioambiental também é de sua responsabilidade, não será possível construir um diálogo legítimo e propositivo.

O segundo passo, e talvez o mais complexo, é construir, a partir deste diálogo legítimo, uma arquitetura de benefícios recíprocos, onde empresa e fornecedor possuem a motivação para trabalhar pela transformação necessária. Se não for bom para todos, não haverá incentivos, inclusive econômicos, para que a relação entre comprador e fornecedor seja duradoura.

Entretanto, para que a transformação aconteça, é necessário mais do que um diálogo legítimo e uma arquitetura de benefícios recíprocos. É necessário desenvolver políticas, processos, ferramentas e rituais que sustentem esta co-construção. Isso inclui, porém não se limita a, encontros e treinamentos para fornecedores, a adoção de cláusulas contratuais e a realização de auditorias externas.

Não existe uma receita de bolo para a gestão de fornecedores. Cada desafio, cada nível de dependência e exposição ao risco aponta para uma estratégia individual. O ponto em comum de todas as estratégias deve ser o direcionamento e a maximização de esforços, que se refletem na adoção de estratégias menos ou mais intensivas em esforços humanos e financeiros, a depender das características de cada fornecedor.

Não se trata de “ou” – preservar margens ou desenvolver um programa de gestão de fornecedores em sustentabilidade – mas sim de “e” – mitigar riscos, gerar oportunidades e potencializar a relação econômica entre compradores e fornecedores.

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