De onde surgem as oportunidades de negócios sustentáveis?

“A maioria, provavelmente, de nossas decisões de fazer algo positivo (…) só pode ser tomada como resultado do espírito animal – uma vontade espontânea de ação ao invés da apatia, e não como o resultado de uma média ponderada de benefícios quantitativos multiplicado por sua probabilidade quantitativa”

 

(John Maynard Keynes, 1883 -1946)

Empreender não é algo fácil, envolve inspiração, transpiração e depende não só de uma expectativa matemática, mas também de um otimismo espontâneo.  É o espírito animal que, em última instância, fornece o sinal verde ou vermelho para qualquer decisão que envolve risco. A matemática e a lógica econômica trabalham a serviço deste otimismo espontâneo e atuam como advogados de defesa e acusação, apresentando argumentos para a decisão final de um juiz.

Vamos aos argumentos a favor do ato de empreender: oportunidades de negócio surgem por meio de dois processos distintos, um relacionado a endereçar gaps de mercado e outro relacionado a encontrar comportamentos de consumo não revelados.

Em primeiro lugar, negócios florescem onde há um problema e uma demanda:

  • É o caso das agências de intermediação de diaristas e babás, que crescem devido ao problema de mão de obra e à demanda reprimida de mulheres que passam cada vez mais tempo fora de casa.
  • É o caso das cooperativas de reciclagem, que precisarão triplicar para viabilizar o aumento da escala de coleta e processamento de materiais recicláveis no Brasil.
  • É (ou era) o caso dos projetos de neutralização de carbono, que cresceram ao redor da expectativa de endurecimento das políticas e práticas de mitigação das mudanças climáticas.

Para estes casos, a linha argumentativa pró e contra se concentra na identificação de falhas de mercado, percebidas quando um ou mais atores com interesses comuns não conseguem maximizar suas utilidades econômicas. É o caso da babá e da mãe que precisam de uma agência para se conhecer, é o caso das empresas que precisam cumprir seus objetivos de reciclagem e não encontram cooperativas suficientes. A dificuldade deste tipo de empreendimento é lidar com a concorrência, uma vez que a oportunidade de mercado é aparente.

Em segundo lugar, negócios surgem da leitura correta de comportamentos não revelados:

  • É o caso do tablet, que converteu uma tendência de mobilidade e computação em nuvem em um aparelho eletrônico.
  • É o caso do desenvolvimento do grafeno, que converteu uma tendência de redução de peso e aumento de força em um novo material substituto ao aço plano.
  • É o caso da Korin que converteu uma tendência de saudabilidade na oferta de frangos orgânicos.

Para estes casos, a linha argumentativa pró e contra empreender se concentra no potencial de mercado a ser traduzido em ganhos econômicos, caso o comportamento não revelado se materialize. Se por um lado existem riscos maiores, o mesmo vale para o retorno. A sintonia com as expectativas da sociedade e a rapidez com que estes comportamentos são traduzidos oferecem aos empreendedores a possibilidade de liderar um novo mercado pelos primeiros anos, até que a concorrência acorde e consiga alcançar.

Não existe receita de bolo, empreender vai muito além de matemática e racional econômico. Mesmo quando a ideia é boa, muita coisa pode sair fora dos eixos. Entretanto, tudo começa com uma leitura correta do mercado, com o alinhamento com as expectativas maduras e emergentes da sociedade.  E isso é ao mesmo tempo o motor e o principal desafio para o desenvolvimento de negócios sustentáveis. A insustentabilidade e a ineficiência são um prato cheio para o desenvolvimento de negócios. Negócios que enderecem os problemas atuais e estejam alinhados com a expectativa da sociedade, de hoje e do futuro.

 

Recent Posts