Desenvolvimento Comunitário em Honduras sob a Ótica de Recursos Hídricos

2014-05-09-1609Honduras é um caso clássico de uma espiral negativa no processo de desenvolvimento: o crescimento populacional e a pobreza num contexto de ausência do Estado, resultam no consumo excessivo de recursos naturais reduzindo a base de sustento econômico local.

Somando-se a outras duas experiências anteriores com trabalhos de desenvolvimento comunitário[1] e ao aprendizado sobre a teoria do Meio Ambiente e Desenvolvimento estudada na LSE[2], estive durante 15 dias em Honduras a convite do Rotary participando do programa VTT – Vocational Training Team, em que uma equipe de treinamento profissional participa de troca de informações e experiências em assuntos específicos, no caso recursos hídricos.

Pude ver que Honduras é um caso clássico de uma espiral negativa no processo de desenvolvimento: o crescimento populacional e a pobreza num contexto de ausência do Estado, resultam no consumo excessivo de recursos naturais reduzindo a base de sustento econômico local. A degradação ambiental se traduz de forma mais explícita na escassez e na má qualidade da água, com inúmeras implicações para o desenvolvimento do país. Ademais, Honduras de forma geral passa por um período de estiagem histórica[3], o que intensifica a percepção das pessoas sobre a mudança climática, tema crítico para o desenvolvimento de qualquer sociedade hoje e no futuro.

A palavra desenvolvimento tem muitos significados e interpretações. No contexto do desenvolvimento sustentável significa um conjunto de aspectos[4]:

  • Desenvolvimento como liberdade: necessidade de remoção de todas as formas de privação: pobreza e tirania, carência de oportunidades econômicas, destituição social, negligência dos serviços públicos, intolerância, direitos civis, etc (Amartya Sen).
  • O processo de desenvolvimento depende essencialmente da qualidade das instituições de cada sociedade, tais instituições são a síntese das crenças de seu povo, a expressão concreta da mentalidade das pessoas (David Landes e Douglas North).
  • O desenvolvimento depende da disponibilidade de recursos naturais disponíveis para serem explorados economicamente (Jared Dimond).
  • Desenvolvimento econômico é uma versão do desenvolvimento natural, ou seja, o primeiro utiliza os mesmos princípios universais que determinam o funcionamento da natureza (Jane Jacobs).
  • Desenvolvimento tem a ver com a possibilidade das pessoas viverem o tipo de vida que escolheram e com provisão dos instrumentos e oportunidades para fazerem as suas escolhas (Ignacy Sachs).
  • Desenvolvimento tem a ver com paz, distribuição de renda, saúde e educação (ONU, Banco Mundial).

Esses aspectos permearam toda a experiência em Honduras. Por meio do tema recursos hídricos, foi possível entender que as regiões de Nacaomi, Choluteca e Trojes, estão claramente inseridas num ambiente difícil e desafiador de transformar uma realidade social, ambiental e econômica de forma a garantir o pleno desenvolvimento das pessoas.

Por exemplo, as regiões de Nacaomi e Choluteca na costa do Pacífico são as menos desenvolvidas do país e passam por um intenso processo de desmatamento. É a região mais seca e quente do país, possui uma rede de rios extensa que, no entanto, estão cada vez mais secos. Historicamente o desmatamento ocorreu para o fornecimento de lenha (energia) para produção de sal e móveis. A lenha é também a principal fonte de energia para população rural. Não há sistema público de abastecimento de água tampouco tratamento de esgoto. O abastecimento de água se dá por conta da perfuração de poços que, com o passar do tempo secam, tornando necessário cavar poços cada vez mais profundos. A construção de reservatórios de larga escala é vista como uma solução. Será?

A gestão da água nas áreas rurais é feita pela AHJASA – Associação Hondurenha de Juntas Administrativas de Sistemas de Água, composta por diversas comunidades. Possui metodologia de participação comunitária e de construção e gestão de sistemas de abastecimento e tratamento da água, incluindo assistência técnica. Nas comunidades visitadas, o sistema opera relativamente bem, com os usuários pagando tarifas pelo consumo da água, o que viabiliza a expansão e a manutenção do sistema. No entanto, embora possuam conhecimentos técnicos do que deve ser feito em micro escala, lhes falta uma visão estratégica do contexto mais amplo sobre recursos hídricos, como uma perspectiva de bacia hidrográfica.

Já no município de Trojes, localiza-se em uma região mais úmida e muito montanhosa, com clima ameno, contando com inúmeros rios que correm nos vales das montanhas, em sua maioria ainda cobertos por vegetação nativa. Por outro lado, os topos de morro e as encostas encontram-se em processo de desmatamento rápido para produção de café e criação de gado. Na realidade, muitas famílias que vivem hoje nesse município vieram de Choluteca, após o esgotamento dos recursos naturais por lá. Percebe-se o mesmo ciclo exploratório que certamente culminará na escassez de recursos naturais no longo prazo.

O projeto desenvolvido no município pela ong PWW – Pure Water for the World, parcialmente apoiado pelos Distritos 4420 (Brasil) e 5890 (Houston/ EUA) do Rotary, traz um grande benefício para o desenvolvimento de comunidades rurais e urbanas. A instalação de latrinas e de filtros permite uma melhora sensível da qualidade de vida das pessoas, em especial das crianças, que desde cedo se habituam e fazer as necessidades fisiológicas em local apropriado e a beber água filtrada. Isso reduz os casos de diarreia e é sem dúvida uma grande iniciativa que, embora pontual e em pequena escala, contribui muito para a saúde das pessoas.

Ao final, verificou-se uma clara necessidade de se pensar o longo prazo, ou seja, uma estratégia futura e de grande escala para lidar com a escassez de água e gerar oportunidades econômicas locais com vistas ao desenvolvimento sustentável.

Esse contexto se assemelha muito a algumas experiências em projetos aqui da Origami relacionados ao desenvolvimento local, investimento social e seus resultados efetivos (ou não), parcerias e articulações entre empresas-governos-sociedade civil. Todas iniciativas louváveis que produzem benefícios incrementais. Me parece que o grande desafio é criar iniciativas de ruptura (breakthroughs) – e dar escala a elas – à semelhança de inovações dessa natureza. Tais inovações geralmente transformam um mercado inteiro ou uma determinada indústria e poderiam sim transformar uma realidade social.

Acredito que essa ruptura não está longe, visto a quantidade de pessoas focadas, de recursos financeiros alocados e de instituições internacionais dedicadas à busca de uma sociedade mais igual.


[1] A 1ª foi o projeto ‘Amazônia Socioambiental’ em que durante 40 dias apoiei as atividades assistenciais da Igreja Metodista nos municípios de Rio Branco, Cruzeiro do Sul e Marechal Taumaturgo/ AC (2001).  A 2ª foi no ‘Projeto Rondon’ que por meio do Ministério da Defesa, orientei estudantes universitários no desenvolvimento de ações de conservação ambiental e uso sustentável dos recursos naturais durante 15 dias no município de Nina Rodrigues/ MA (2010).

[2] Em 2002-03 fiz um mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento na LSE – The London School of Economics and Political Science.

[3] A propósito, semelhante ao que ocorre em São Paulo e na Bacia do Rio Colorado nos EUA (http://www.nytimes.com/2014/01/06/us/colorado-river-drought-forces-a-painful-reckoning-for-states.html?_r=0).

[4] VEIGA, J. E. Desenvolvimento Sustentável: o desafio do século XXI. Rio de Janeiro: Garamond. 2005. 220p.

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