Elementos de Indução ao Desenvolvimento Territorial em Áreas Degradadas Pós Mineração: indústrias criativas como parte da solução?

Empreendimentos de mineração produzem riquezas e impactos nas localidades onde atuam. Jamais um local que passou por um processo de mineração de longo prazo voltará a ser o que era antes. Se por um lado, durante o período em que a empresa está operando oportunidades de emprego, de fornecimento de bens e serviços e de geração de renda são criados, por outro quando a área é descomissionada, geralmente a economia local sucumbe rapidamente.

Economia criativa como elemento de desenvolvimento territorial

Atualmente, empresas de mineração com posicionamento de vanguarda em sustentabilidade buscam fomentar condições para que as localidades se tornem independentes economicamente da operação no longo prazo.

Para alcançar um objetivo dessa natureza, relativo ao grau de dependência de uma localidade em relação a uma determinada empresa, entende-se que algumas características de Economia Criativa devem ser levadas em conta quando se pensa o desenvolvimento local. Especialmente em áreas remotas, longe de centros urbanos, em que os elementos tradicionais de desenvolvimento socioeconômico são escassos e/ ou difíceis de serem criados e mantidos após o ciclo de mineração.

Concluímos recentemente um estudo de benchmark internacional sobre iniciativas de desenvolvimento territorial em áreas abandonadas de mineração. Como será visto adiante, é possível notar nas iniciativas selecionadas traços de economia criativa em diversos níveis de profundidade. Ou seja, em algumas iniciativas aspectos de economia criativa estão no centro das propostas, ao passo que em outras a questão é tratada marginalmente. Da mesma forma, existem ‘produtos criativos’ em certas iniciativas enquanto em outras predominam ‘processos criativos’.

Nota-se que em muitas das iniciativas consolidadas estão presentes fortes características de desenvolvimento socioeconômico tradicional, com elementos sólidos de sustentabilidade – ambiental, social e econômica. Essas iniciativas nascem com o princípio de desenvolvimento sustentável sendo aplicados na prática.

Economia Criativa & Indústrias Criativas

Mas o que significa Economia Criativa?

De acordo com a UNCTAD[1], a definição a economia criativa é um conceito em evolução que se baseia em ativos criativos potencialmente geradores de crescimento econômico e desenvolvimento. A economia criativa, portanto:

  • Pode promover ganhos de geração de renda, criação de emprego e exportação promovendo a inclusão social, a diversidade cultural e o desenvolvimento humano;
  • Abrange aspectos econômicos, culturais e sociais que interagem com tecnologias, propriedade intelectual e objetivos de turismo;
  • É um conjunto de conhecimentos baseados em atividades econômicas com uma dimensão de desenvolvimento e ligações transversais nos níveis macro e micro da economia como um todo;
  • É uma opção de desenvolvimento viável com viés inovador, com respostas multidisciplinares em termos de políticas e de ação interministerial;

No coração da economia criativa estão as indústrias criativas. As indústrias criativas, ainda conforme UNCTAD são construídas sobre o capital cultural e do patrimônio de um local, e muitas vezes têm raízes profundas no ambiente natural. Por exemplo, o conhecimento tradicional que faz com que as indústrias criativas sejam únicas, tendo evoluído ao longo dos séculos através da observação e uso do ambiente natural:

  • Através do estudo dos padrões no mundo natural, antigos estudiosos nos deram a ciência da matemática, a fundação de tecnologias de informação e comunicação;
  • A partir do estudo e uso de plantas vieram nossos primeiros sistemas de medicina e a base da medicina natural e a indústria de cosméticos;
  •  Conhecimento indígena sobre o meio ambiente natural criou mercados lucrativos para artes visuais, eco-fashion e ecoturismo.

Assim, as indústrias criativas:

  •  São os ciclos de criação, produção e distribuição de bens e serviços que utilizam a criatividade e o capital intelectual como insumos primários;
  • Constituem-se um conjunto de atividades baseadas no conhecimento, com foco na, mas não limitada às artes, potencialmente geradores uma receitas de comércio e direitos de propriedade intelectual;
  • Compreende os produtos tangíveis e intangíveis – serviços intelectuais ou artísticos – com conteúdo criativo, valor econômico e os objetivos de mercado;
  • Coloca-se na encruzilhada do trabalho artesão e dos setores de serviços e industriais;
  • Constituem-se de um novo setor dinâmico do comércio mundial.

Os gráficos abaixo mostram o potencial de geração de emprego nas indústrias de mineração e criativa na Austrália e sua representatividade no PIB do país[2]. 

Verifica-se que há uma relação inversa entre contribuição para o PIB e geração de empregos: enquanto a mineração contribui mais para o PIB, a economia criativa gera mais empregos.

Iniciativas Internacionais em Desenvolvimento Territorial em Áreas Pós Mineração

Foram selecionadas 9 iniciativas de desenvolvimento territorial em países como Austrália, Canadá, Europa Central, Leste Europeu e EUA além de consultas a alguns estudos e relatórios de pesquisa comissionados por governos a respeito do que se fazer em áreas de mineração abandonadas. A tabela a seguir descreve os aspectos chave de cada uma das iniciativas.

Elementos contidos nas iniciativas de desenvolvimento territorial analisadas

Com base na análise das iniciativas acima, foram identificados alguns elementos comuns a todas elas, e que de alguma forma, caracterizam um processo de desenvolvimento territorial em áreas pós mineração. Esses elementos são:

  • Aspectos de Desenvolvimento Socioeconômico Tradicionais;
  • Aspectos de Economia Criativa;
  • Desenvolvimento e/ ou Utilização de Tecnologias Verdes;
  • Engajamentos Profundo de Stakeholders;
  • Estruturas Institucionais Consolidadas (Governança);
  • Articulação, Criação e Manutenção de Redes;
  • Sustentabilidade Econômico-Financeira;
  • Tipo de Funding (Público, Privado ou Misto).

Depois de identificados os elementos classificaram-se conforme a seguinte simbologia:

•  Há uma relação muito forte com o elemento de desenvolvimento territorial; é o objetivo / ação principal da iniciativa.

ο  Há uma relação com o elemento de desenvolvimento territorial, mas são objetivos / ações marginais da iniciativa.

·  Há uma relação fraca ou indireta com o elemento de desenvolvimento territorial.

Essa classificação nos dá um mapa da relevância de determinados elementos para cada iniciativa. Podemos notar que aspectos de economia criativa aparecem marginalmente em 5 iniciativas enquanto somente em 1 é o objetivo principal da iniciativa. 

Potencial para o Brasil

Muitas das iniciativas ligadas ao desenvolvimento local em áreas de mineração estão ligadas ao patrimônio histórico das localidades. Em especial na Europa,através do turismo, se começa a dar valor às áreas de mineração abandonadas como uma espécie de ‘tributo’ à Era Industrial.

No caso brasileiro pode-se pensar, não sob a ótica do passado – patrimônio histórico – mas sim sob uma perspectiva de futuro e inovação ligados ao capital natural, social e humano do país.

Sabendo-se apropriar e adaptar as melhores práticas internacionais e utilizando-se dos elementos dos serviços da biodiversidade e da endêmica criatividade da população brasileira, é possível vislumbrar o desenvolvimento de indústrias criativas em áreas pós-mineração no país.

Por fim, a figura abaixo mostra algumas reflexões que capturam a essência do que se deve considerar em processos de desenvolvimento territorial em áreas pós-mineração de acordo com os levantamentos realizados. 

___________

Para informações mais específicas sobre o Benchmark realizado bem como sobre a abordagem da Gestão Origami para ações de Desenvolvimento Local e sua relação com o processo de Licenciamento Ambiental, por favor, entre em contato conosco pelo telefone 11 3709 2113 ou pelo email vicente.manzione@gestaoorigami.com.br.

 


[1] UNCTAD (2010) “Creative Economy: a feasible development option”. Creative Economy Report 2010. Disponível em: http://www.intracen.org/uploadedFiles/intracenorg/Content/About_ITC/Where_are_we_working/Multi-country_programmes/CARIFORUM/ditctab20103_en.pdf

[2] Centre for International Economics. Creative Industries Economic Analysis. Final report. http://www.enterpriseconnect.gov.au/who/creative/Documents/Economic%20Analysis_Creative%20Industries.pdf

 

Recent Posts

Leave a Comment