IPCC 5AR: Os custos da redução de emissões

O 5° Relatório do IPCC indica que ainda é possível evitar o aumento de 2°C na temperatura do Planeta, mas para isso as concentrações de GEE na atmosfera devem estar entre 450-500ppm (partes por milhão) em 2100. Mudanças estruturais nos setores de energia e de uso da terra e uma redução marginal no crescimento do consumo são medidas necessárias.

O que diz o 5AR

Foi publicado nessa semana o Sumário para Formuladores de Políticas Públicas do Grupo de Trabalho III do IPCC relativo ao 5º Relatório de Avaliação (5AR)[1]. O GT III lida com as questões de Mitigação da Mudança Climática, ou seja, trata da redução das emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE). A título de informação, no fim de 2013 o GT I (Bases Físicas da Mudança Climática) publicou seu relatório e há 15 dias foi à vez do GT II (Impactos, Adaptação e Vulnerabilidades) publicar suas conclusões.

Segundo o 5AR, ainda é possível evitar o aumento de 2°C na temperatura do Planeta. Para isso ocorrer o relatório estima que deverá haver redução de 40%-70% das emissões de GEE em 2050 em relação a 2010 (para concentrações de 450ppm) ou redução de 25%-55% para se chegar em 2100 com concentrações de 500ppm. Isso significa que em 2030 as emissões globais anuais deveriam ser de 30-50 GtCO2e/ ano. Essa magnitude de redução de emissões somente será possível mediante mudanças em larga escala nos sistemas de energia e potencialmente em práticas no uso da terra. Esses dois setores produzem eletricidade e alimentação, bens e serviços cruciais para o desenvolvimento de qualquer sociedade.

E aqui começam os problemas!

As emissões atuais estão em 49 GtCO2e/ ano, aumentando a uma taxa de 1 GtCO2e/ ano entre 2000 e 2010 (foram de 0,4 GtCO2e/ ano entre 1970-2000) principalmente por conta do crescimento populacional e da atividade econômica. Medições das concentrações de GEE indicam que atualmente elas estão em cerca de 430ppm.

Ou seja, em se mantendo o cenário de linha de base atual, no qual não há esforços adicionais para se reduzir as emissões de GEE, em 2030 às concentrações de GEE na atmosfera serão de 450ppm e em 2100 de 750-1300ppm o que significa um aumento da temperatura entre 3,7°C-4,8°C no fim desse século.

Custo Macroeconômico e Setorial

Ainda segundo o 5AR, considerando-se que: i. Todos os países contribuam imediatamente com esforços de redução de emissões; ii. Se chegue a um preço global para o carbono; e iii. Todas as tecnologias-chave (Energias Renováveis, Bioenergia, Nuclear, CCS – Captura e Armazenamento de Carbono e Eficiência Energética) estejam disponíveis, o custo macroeconômico para se manter as concentrações de GEE em 450ppm em 2100, é a necessidade de redução no crescimento do consumo global.

Conforme o 5AR, essa redução seria de 1,7% em 2030, de 3,4% em 2050, e de 4,8% em 2100 relativos ao consumo do cenário de linha de base. Nesse cenário, o consumo cresce entre 300%-900% ao longo do século XXI. Isso representa uma redução no crescimento do consumo de 0,06 pontos percentuais/ ano ao longo do século relativamente ao crescimento anualizado de consumo no cenário de linha de base que varia entre 1,6%-3% ao ano. Parece-me uma redução marginal em relação ao tamanho do crescimento do consumo previsto e ao tamanho do risco da temperatura subir mais de 2°C em relação à era pré-industrial.

Cabe mencionar o significado dos 2°C: de acordo com as conclusões do GT I e GT II do IPCC, o aumento de 2°C na temperatura causaria uma mudança radical no sistema climático da Terra com impactos socioeconômicos e ecológicos significativos. Eventos climáticos extremos (secas prolongadas, chuvas intensas, furações, etc) se tornariam mais intensos e mais frequentes comparativamente às mudanças incrementais que já começamos a vivenciar nos dias de hoje. Isso sim causaria uma mudança no status quo, especialmente na estrutura de custos dos setores mencionados.

Curiosamente, o 5AR diz que a principal dificuldade para redução das emissões é justamente à preferência da sociedade pelo status quo (!!!) – entendido , por exemplo, como a manutenção do uso de tecnologias intensivas em combustíveis fósseis e perda de cobertura florestal para a produção de alimentos.

De certa forma, não há grandes novidades no 5AR em relação ao 4AR publicado em 2007. Há sim evidências científicas mais específicas e robustas acerca da necessidade de uma ação global rápida e em larga escala.

O próximo capítulo será a COP-20 a ser realizada em Lima, Peru em dezembro próximo. Haverá avanços?

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