Mobilidade e Igualdade

Na quinta feira da semana passada, dia 3 de Outubro, tive o prazer de ir à Sabatina com o ex-prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa, em um evento organizado pelo jornal Folha de São Paulo, em parceira com o Fronteiras do Pensamento.
Enrique Peñalosa é considerado um dos maiores especialistas mundiais em mobilidade urbana, devido a sua experiência de sucesso como prefeito de Bogotá entre os anos de 1998 e 2001.
Segundo Peñalosa, economista de formação, o sucesso de uma estratégia de investimento está diretamente relacionado aos incentivos que são apresentados aos usuários. Isto, no contexto de uma grande metrópole, como São Paulo, significa desestimular o uso dos carros.
Isso porque mobilidade e engarrafamento são problemas distintos e que exigem soluções distintas. Dado que a oferta de vias públicas é finita, o único modo de resolver os engarrafamentos é por meio da redução da demanda por tais vias. Este é o modelo seguido por Londres, que apesar de sua reconhecida estrutura de transporte público, adota a cobrança de pedágio urbano.
Aliás, Londres adota uma estratégia ainda mais ambiciosa para os padrões de São Paulo, não permitindo a construção de prédios comerciais com vagas de garagem. Se este fosse o caso de São Paulo, provavelmente teríamos mais lançamentos de prédios comerciais no centro da cidade do que no eixo Faria Lima – Berrini (ou teríamos mais investimentos em transporte público por consequência do lobby das construtoras).
Outro conceito interessante trazido por Peñalosa é a defesa dos corredores de ônibus sob a perspectiva da igualdade social. Se todos os cidadãos são iguais perante o Estado, e dotados do mesmo direito de acesso e uso dos espaços públicos, é sensato e democrático que um ônibus que leva 80 pessoas ocupe 80 vezes mais espaço do que um carro com apenas uma pessoa.
Ainda sob a perspectiva da democracia, uma ciclovia protegida é um direito dos usuários, assim como ruas bem sinalizadas é um direito dos motoristas. Em uma boa cidade, ricos e pobres, motoristas e ciclistas devem conviver nos espaços públicos.
Segundo Peñalosa, quando os shoppings substituem os espaços públicos como lugar de encontro é um sinal de que a cidade está enferma. Entretanto, a culpa não é dos shoppings, mas sim da cidade que não consegue oferecer um espaço público (produto) tão atrativo quando o shopping. Desta forma, as cidades devem aprender com os shoppings para poder competir com eles. Com boas calçadas, segurança e opção de lazer, a balança da oferta e demanda voltará a pender para os espaços públicos.
É claro que os corredores de ônibus seriam muito melhores se a estrutura de transporte público já fosse eficiente. Mas isso não significa que a mudança de foco de engarrafamento para mobilidade não acontecerá, significa apenas, para desprazer da nossa geração, que a mudança será mais difícil. Uma cidade sem trânsito é um sonho tão distante quanto o sonho de uma cidade com um sistema de transporte público eficiente. Por isso, o importante é escolher o sonho correto.
Infelizmente, a Sabatina teve apenas 1h30 de duração, pois Enrique Peñalosa tinha um jantar programado com o prefeito Fernando Haddad. Espero que a conversa tenha inspirado o prefeito.
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