Novos rótulos para alimentos: impactos, expectativas e estratégias em direção à saudabilidade

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O debate sobre a cadeia global de alimentos, especificamente quanto à deficiência de micronutrientes, ganha força no Brasil. Isso porque, em 2014, iniciou-se um debate polêmico em torno de uma alternativa para identificar nos rótulos dos alimentos industrializados, os danos que o excesso de sódio, açúcares e gorduras saturadas podem ocasionar à saúde do consumidor. Na discussão entre Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), setor privado e entidades ainda existem dúvidas sobre os impactos na economia e quanto à real eficiência dos alertas nas embalagens, mas independente das divergências, a questão se afunila e uma decisão final pode entrar em vigor já em 2019, afetando fortemente o setor.

Danos à saúde

Organizações em todo o mundo pressionam o setor de alimentos e os governos a promover a nutrição a partir da expansão da oferta de alimentos enriquecidos com micronutrientes, bem como através da expansão dos micronutrientes disponíveis nos alimentos enriquecidos. No Brasil, dados recentes demonstram que o acesso de crianças e adolescentes aos micronutrientes é precário. Os níveis de inadequação destes perfis a uma série de micronutrientes importantes – como as vitaminas A, D e E – atingem patamares que variam entre 66% e 100%. E na população adulta os resultados também são alarmantes, com destaque para os elevados índices de inadequação na ingestão das vitaminas A, D e E, bem como carências relacionadas ao cálcio, sódio e magnésio.

Esses dados revelam que deficiências nutricionais atingem largos segmentos da população brasileira durante toda a vida. O excesso de peso e a obesidade entre crianças e adolescentes são considerados desafios de saúde pública mais relevantes que a desnutrição no longo prazo. Recentes dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) demonstram evolução da proporção de brasileiros em condição de excesso de peso ou obesidade. Entre 1974 e 2009, a proporção de adultos obesos saltou de 8% para 16,9% da população feminina, e de 2,8% para 12,4% entre os homens, no mesmo período.

No campo da nutrição, recentes análises evidenciam que a transição nutricional brasileira – maior consumo de alimentos industrializados, intensivos em calorias derivadas de gorduras, açúcar e sódio – tende a agravar os índices de sobrepeso e obesidade no Brasil entre as populações adultas. Segundo o IBGE, mais de 3/4 da população em todas as faixas de idade ingerem quantidades superiores às recomendadas de açúcar e gordura saturada e menos fibras do que o necessário para o bom funcionamento do organismo.

Propostas de rotulagem

Diante de dados impactantes, a Anvisa iniciou um debate entre a indústria, o governo e entidades que representam os setores da economia a fim de desenvolver alternativas que deem mais proteção ao consumidor no momento da compra dos produtos alimentícios industrializados. Seguindo alguns modelos implantados em outros países foram sugeridas duas formas de alertas. A primeira seria a utilização de triângulos pretos impressos na frente das embalagens, com as devidas advertências sobre o nível de ingredientes presentes ao produto e que podem fazer mal à saúde, como açúcares, sódio e gorduras. A outra ideia é que a mesma parte frontal das embalagens receba o desenho de um semáforo que destacaria as informações sobre a presença destes mesmos ingredientes e que teriam sua quantidade classificada como “alta” (vermelho), “média” (amarelo) ou “baixa” (verde).

Fontes: Valor Econômico, Abia e Idec

 

A sugestão um, apresentada pelo Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), juntamente com mais 19 entidades e a Universidade Federal do Paraná, foi recomendada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em relatório preliminar divulgado esse ano. Nele a agência reforça que o modelo é adotado no mercado internacional e foi efetivo, ajudando a reduzir o consumo desses produtos em países como o Chile, que apresentou queda de 16% neste tipo de consumo. Já a segunda sugestão, apresentada pelo setor de alimentos industrializados, argumenta que a mudança, assim como a primeira, trará prejuízos importantes para o setor, mas de menor impacto. A adoção dos triângulos, segundo a indústria, causa medo ao consumidor, e já se fala em uma queda de 10,3% no consumo e, consequentemente, na perda de 1,9 milhão de empregos, reduzindo a massa salarial no país em R$ 14,4 bilhões e o impacto negativo no setor industrial (excluindo as indústrias de alimentos e bebidas) seria de R$ 28,4 bilhões.

O Governo

O governo brasileiro passou a reconhecer os custos de longo prazo que dietas inadequadas, a desnutrição e o sedentarismo acarretarão sobre o sistema produtivo e o sistema de saúde. Na sua última revisão da Política Nacional de Alimentação e Nutrição, o Ministério da Saúde apontou alguns fatores como críticos na maior incidência de doenças não-contagiosas, como câncer e problemas cardiovasculares, entre eles:

  • menor consumo de frutas, hortaliças, arroz e feijão;
  • aumento do consumo de refrigerantes e alimentos intensivos em sódio, açúcar e gorduras saturadas;
  • investimentos em produtividade e tecnologia na indústria de alimentos que favoreçam a oferta a preços baixos de alimentos com grande quantidade de calorias provenientes de sódio, açúcar e gorduras saturadas e de baixo valor nutricional (quantidade reduzida de micronutrientes).

Mas apesar das informações, o governo federal vive um dilema entre aprovar um ou outro modelo. Em recente encontro com empresários na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), o presidente Michel Temer ouviu críticas aos sistema de rotulagem e, no seu pronunciamento, pediu cautela nas decisões. O presidente do conselho da Associação Brasileira da Indústria da Alimentação, Wilson Mello, disse que a mudança pode causar desemprego na indústria da alimentação, segundo ele, responsável por 10% do PIB brasileiro.

Após o encontro na Fiesp, Temer passou a reunir-se com os empresários a fim de aprofundar a discussão e em seguida nomeou o cardiologista William Dib. O novo diretor-presidente da agência defende o sistema de semáforos e diz que a decisão seria consensual dentro da Anvisa. O Idec, que propõe o uso dos triângulos, se mantém firme sobre o seu posicionamento, pois à análise técnica da agência recomenda que os triângulos seriam melhor compreendidos pela população como a exemplo do que vem acontecendo em outros países que adotaram o modelo.

Movimentos da indústria

Neste cenário de indefinições e dúvidas, é importante o entendimento, por parte da indústria, dos impactos e expectativas e estabelecer uma estratégia em direção da saudabilidade. Para o consultor em negócios sustentáveis da Gestão Origami, Bruno Vio, o primeiro passo a ser dado pelas empresas do setor é investigar as implicações do tema para portfólio, atual e futuro, de produtos.

“As mudanças serão inevitáveis e a sustentabilidade das empresas depende da capacidade de responder a este novo momento”, alerta.

Algumas empresas já tomaram a dianteira e começam a implantar programas que se alinham às transformações do setor. Exemplos são ações de promoção de dietas saudáveis a partir de pesquisa e inovação, a criação de métricas e metas de longo prazo em variáveis críticas de saudabilidade, assim como o estabelecimento de metas de redução de sódio, açúcar e gordura em seus produtos por meio de parcerias com institutos de pesquisas e universidades. Especialista no desenvolvimento de projetos com foco em gestão de públicos de interesse, Bruno reforça que para a elaboração destas ações é preciso construir uma perspectiva clara e completa dos riscos e oportunidades que a saudabilidade impõe.

“As empresas podem ser vítimas ou indutoras da mudança. Esta é a diferença entre uma postura reativa ou à construção de uma estratégia de alinhamento às expectativas da sociedade”.

 

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