Os riscos da adaptação à mudança climática no setor produtivo

Adaptação e os eventos climáticos extremos

Se por um lado a mitigação da mudança do clima traz (ou trouxe) algumas oportunidades para o setor produtivo através de operações no mercado de carbono, por outro lado a adaptação aos efeitos da mudança do clima se apresenta como risco para o setor. A questão da adaptação ganhou força nos debates internacionais após diversas evidências de que eventos climáticos extremos estão se tornando cada vez mais intensos e frequentes.

Um exemplo: a reseguradora SwissRe publica anualmente desde 2002 o Relatório Sigma. Os gráficos abaixo foram extraídos do relatório de 2011 intitulado ‘Natural catastrophes and man-made disasters in 2010’ e mostram respectivamente o aumento no número de catástrofes naturais a partir de 1985 e o aumento do número de perdas seguradas derivadas de catástrofes naturais entre 1970 e 2010.

A Redução de Riscos e Desastres (RDD), assim como discussões sobre planejamento, financiamento e implementação de medidas de adaptação ganham espaço considerável nas análises de políticas e econômicas em relação à avaliação dos custos e benefícios da adaptação e do custo-efetividade das ações de adaptação. No entanto, a ênfase principal têm sido dada a atividades financiadas e implementadas por entidades públicas.

Não obstante, os impactos de eventos extremos têm cada vez mais chamado a atenção das empresas a conhecerem seus riscos, avaliá-los e quando necessário gerenciá-los de forma integrada tanto em termos operacionais quanto em termos estratégicos. Diversos estudos demonstram que a mudança do clima trará uma série de impactos nos negócios, incluindo interrupções nas operações, aumento de custos de manutenção e materiais, e aumento do custo com seguros. Três exemplos ilustram essa afirmação.

(1) Fiz uma análise recente de Relatórios Anuais de algumas empresas de mineração multinacionais, e me deparei com as seguintes afirmações dos CEOs em suas mensagens aos acionistas e agentes do mercado de capitais:

“Against a background of difficult operational conditions, including exceptional flooding in early 2011 at many of our operations in Australia, Chile and South Africa…”

“Potential impacts from climate change are difficult to asses…these may increase costs, reduce production levels or impact the results of operations”.

“Production at the Queensland operations was affected by record heavy rainfall and subsequent flooding in late 2010 and in the first quarter of 2011, which resulted in force majeure declarations being in effect until June 2011. This affected both the open cut and underground operations. As a consequence, sales of high quality metallurgical coal decreased by 11% to 14.0 Mt for the year.”

Anglo American Annual Report 2011, Chairman‘s Statement, Business Risks and Financial Overview sessions.

“We have achieved record results in challenging  markets during 2011. We made good progress during market volatility despite our Australian operations being disrupted by severe flooding.

Rio Tinto, Annual Report 2011, Chief executive’s statement .

“The market price of coking coal rose strongly because of flood damage to mines and their infrastructure in Australia and Brazil”.

RUUKKI, Annual Report, Business environment and markets, 2011.

(2) A Gestão Origami concluiu recentemente mais um estudo setorial[1], dessa vez no setor de seguros. Um dos temas materiais de sustentabilidade no setor e considerado um grande risco para as seguradoras são os eventos climáticos extremos, em especial os riscos associados a enchentes e deslizamentos de terras nas grandes cidades. Um estudo recente da SwissRe quantifica, no cenário otimista, em R$ 5,3 bilhões os riscos financeiros relacionados a eventos extremos em cidades brasileiras até 2030.

(3) As operações da Vale em Minas Gerias entraram em estado de força maior em janeiro de 2012 em função das fortes chuvas que atingiram o estado, impedindo a extração de minério de ferro e seu transporte pelas estradas danificadas pelas chuvas.

Nesse contexto, a preparação para os efeitos da mudança climática se tornará cada vez mais importante se as empresas quiserem manter suas atuais operações e vantagens competitivas.

Riscos potencias e como lidar com eles

Estudo publicado pela OECD[2] analisa o engajamento do setor privado na adaptação a mudança do clima. O estudo identificou os riscos potenciais para alguns setores, algumas estratégias para a adaptação, além de descrever como as empresas podem lidar com os riscos.  Na tabela abaixo são apresentados os riscos potenciais.

MC_riscossetores

Para lidar com os riscos, o estudo identifica algumas estratégias possíveis de adaptação:

MC_EstrategiasAdaptação

Além disso, o estudo analisa como o setor privado pode lidar com os riscos. A análise considera 3 abordagens sucessivas que são construídas com bases nos resultados do nível anterior. Esses níveis são:

MC_AbordagensRisco

 

Um aspecto que me parece fundamental nesse contexto, e talvez o ponto inicial do processo, é a empresa saber se suas operações estão localizadas em uma área de vulnerabilidade a alguns evento climático extremo. Se a resposta for positiva, então há necessidade de endereçar o assunto, senão pela ótica estratégica, pelo menos sob o ponto de vista operacional.

Novas normais climáticas

Ações efetivas de conscientização, avaliação e/ ou gerenciamento para endereçar os riscos setoriais identificados deveriam começar pelo conhecimento de dados históricos e pela medição e monitoramento,  no presente, de variáveis ambientais no local do empreendimento. Algumas variáveis ambientais a serem consideradas são: temperatura, precipitação, velocidade e direção do vento, vazão de rios, cobertura florestal de APPs, proximidade com áreas de encosta e de barragens, entre outras.

Informações históricas dessa natureza são difíceis de serem obtidas, mas as estações meteorológicas espalhadas pelo país e gerenciadas por órgãos governamentais tais como ANA – Agência Nacional de Águas, ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica e INM – Instituto Nacional de Meteorologia são fontes confiáveis de informações históricas. Da mesma forma, Planos de Bacias Hidrográficas, Mapas de Vulnerabilidades produzidos, por exemplo, pelo IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas, além de bons Estudos de Impactos Ambientais (EIA) podem também ser fontes informação.

Mas não basta conhecer e usar os dados históricos e monitorar as variáveis no presente. A cada ano cresce a certeza de que as normais históricas relacionadas ao clima não servem mais de parâmetro. Por exemplo, pesquisadores norte-americanos estão coletando dados que redefinirão os padrões médios climáticos do país. As novas médias (ou normais, como chamam) substituirão os padrões médios atuais que são do período de 1971 a 2000. As novas médias foram lançadas no final de 2011 e substituíram as da década de 70 – uma década marcada por temperaturas mais frias – e acrescentaram registros da década mais quente da história, os anos 2000.

Essa situação pode significar grandes mudanças em indústrias e organizações que dependem da média histórica do clima para desenvolver suas atividades. Órgãos reguladores e empresas dos setores de água, energia e saneamento, seguradoras, empreendimentos portuários e turísticos, a agropecuária e os órgãos ambientais responsáveis pela biodiversidade são alguns exemplos de atividades poderão ter suas vendas futuras ou orçamentos impactados por novas médias.

Algumas indústrias e organizações nos EUA estão antecipando as mudanças e até deixando de lado o padrão de atualização a cada 30 anos. Por exemplo, o Centro Nacional de Dados Climáticos dos EUA (NCDC, em inglês) está avaliando atualizar as médias anualmente no início de cada ano para adicionar às médias históricas dados de anos recentes. Ações desse tipo são fundamentais na hora de decidir sobre a localização ou construção de um novo empreendimento.

São questões dessa natureza que indicam a importância do assunto para as empresas. Embora esse assunto ainda seja incipiente no Brasil, a Política Nacional de Mudança Climática prevê que alguns setores empresariais elaborem seus Planos Setoriais de Adaptação e Mitigação. Interessante notar, no entanto, que os Planos atualmente em negociação tratam somente de como reduzir as emissões, esquecendo completamente de como as empresas deveriam lidar com os riscos associados aos efeitos da mudança do clima e de que forma o poder público deveria incentivar ações nesse sentido.

Deve-se lembrar que o Relatório Stern em 2007 provou que quanto mais se adiar as ações maiores serão os custos associados à adaptação.


[1] Maiores informações sobre os estudos setoriais desenvolvidos pela Gestão Origami, favor entrar em contato no telefone 11 3030-6746.

[2] Agrawala, S. et al. (2011), “Private Sector Engagement in Adaptation to Climate Change: Approaches to Managing Climate Risks”, OECD Environment Working Papers, No. 39, OECD Publishing.

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