Paraty, Cidade da Sustentabilidade
Uma das mesas mais interessantes da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), e paradoxalmente menos noticiada, foi a que reuniu um público significativo, composto em sua maioria por moradores locais, para discutir o presente e o futuro de Paraty a partir das lições do passado e baseado no conceito de “cidades criativas”.
Para o debate, estiveram presentes Ana Carla Fonseca Reis, economista e doutora pela USP, além de consultora da ONU para o tema de cidades criativas, Victor Zveibil, arquiteto e urbanista, e Luís Perequê, músico e conhecido agitador cultural de Paraty.
A introdução, feita por Ana Carla, foi muitíssimo interessante porque procurou situar o conceito de “Cidades Criativas” no contexto global, a partir de uma pesquisa coordenada pela Garimpo de Soluções em 13 países e que apontou os três elementos comuns para que uma cidade possa ser considerada criativa: abertura a inovações, existência de conexões (entre periferia/centro, público/privado, passado/futuro etc.) e investimento em cultura.

A Flip trouxe 20 mil pessoas para Paraty em 2010. Foto: Renato Guimaraes
Ela trouxe vários exemplos de como isto se dá ao redor do mundo e de como as cidades criativas, em sua singularidade, representam polos de atração de investimento e de atenção, especialmente no que se refere ao turismo. Isto é particularmente importante no contexto da globalização, quando as pessoas estão buscando o diferencial, o singular, em meio à pasteurização reinante.
A relação com Paraty é óbvia, já que a cidade vem se tornando ao longo dos anos em uma referência no que se refere à preservação de seu núcleo histórico e aproveitamento da natureza exuberante para atrair turistas de todo o mundo, conjugado com uma programação de eventos que tem na Flip o seu carro chefe. Mas isto tem um preço, como bem lembrou os outros dois debatedores.
Meio ambiente urgente
Victor Zveibil foi secretário de Obras e Serviços Públicos de Paraty no começo dos anos 80 e segue acompanhando o desenvolvimento da cidade. Embora reconhecendo os esforços desenvolvidos para dotar a cidade da estrutura necessária para receber o crescente fluxo de turistas, ele chamou a atenção para algumas deficiências crônicas que precisam ser sanadas, como a implantação de um sistema de saneamento básico em conjunto com Angra dos Reis.
Em sua opinião, o sistema de coleta e tratamento de lixo é outro ponto que precisaria ser abordado com urgência. Afinal, é incompreensível para um turista, especialmente estrangeiro, que não exista um sistema regular de coleta seletiva de lixo em Paraty.
Pior seria se este mesmo turista, desavisado, vagasse pela região da Boa Vista, uma área de proteção ambiental, e se deparasse com o lixão que recebe os dejetos da cidade. Poderia testemunhar o trabalho insalubre e perigoso dos catadores, mas dificilmente veria o fluxo permanente de chorume se esvaindo em direção ao rio dos Meros e dali chegando à Baía de Paraty.
Uma face da cidade, comum ao outras tantas pelo Brasil afora, que não faz jus às suas pretensões de se tornar um patrimônio histórico e artístico da humanidade.
Defeso cultural
Mas foi Luiz Perequê, o terceiro debatedor, quem fez as críticas mais contundentes à confusão que, segundo ele, acontece em Paraty entre “produto cultural” e “manifestação cultural”. Este ponto vai no coração do conceito de cidades criativas, que usam da cultura como uma possibilidade de criação e estreitamente das relações com seus visitantes, e não apenas como um espaço de visita, contemplação ou comemoração.
Luiz Perequê usou o exemplo das rodas de ciranda, que eram típicas da cidade até poucos anos, como uma possibilidade de os visitantes conhecerem e interagirem com a cultura local de maneira mais orgânica. Hoje estas rodas são cada vez menos frequentes e os cirandeiros, para sobreviver, acabam entrando no jogo do turismo de massa, tocando para as pessoas que se equilibram nas pedras da zona histórica, em troca de algumas moedas.
Como ele disse, a confusão entre entretenimento e cultura e a chegada constante de novos investimentos turísticos estão fazendo com que Paraty seja obrigada a desenvolver um ciclo permanente de eventos para garantir o fluxo constante de visitantes.
Neste contexto, o cargo de secretário de turismo se torna o mais estressante da administração municipal, já que qualquer baixa no número de visitantes resulta em uma cobrança imediata de ações por parte dos operadores da indústria turística.
Luís Perequê propôs uma espécie de “defeso cultural” para a população local ter ter tempo de voltar-se para si e fortalecer suas tradições culturais.
Mesmo as manifestações tradicionais, como a Festa do Divino, acabam sendo obrigadas a se reinventar, dentro da lógica do entretenimento, para se transformar em eventos de massa, incluindo shows de artistas de projeção nacional, quando historicamente eram muito mais espaços de interrelação cultural e/ou religiosa entre a comunidade local e os visitantes.
Luiz Perequê reconhece que não é possível voltar no tempo, mas ele acredita que o futuro não pode ignorar o que sempre funcionou como singularidade de Paraty. Ele propôs, inclusive, uma espécie de “defeso cultural”, um período sem eventos na cidade e no qual a população local possa ter tempo de voltar-se para si e fortalecer suas tradições culturais.
Cidade Sustentável
De novo voltamos ao tema da singularidade, o que torna determinada cidade ou comunidade especial aos olhos e sentidos dos visitantes. É justamente este o desafio que cidades que vivem do turismo, como Paraty, têm de enfrentar: o de definir estrategicamente qual é o seu diferencial e o que deve ser feito para ressaltá-lo e protegê-lo.
A criatividade, neste caso, não vem apenas de proteger um núcleo histórico que encanta a todos os visitantes, ou de ter uma natureza incomparável, ou de produzir uma cachaça entre as melhores do Brasil, ou da simpatia de seu povo e a delícia de sua culinária. É algo mais profundo e está intimamente vinculado ao conceito de sustentabilidade:
- Do ponto de vista econômico, por exemplo, significa encontrar formas de gerar uma “economia criativa e inclusiva”, na qual todos os elementos econômicos que giram ao redor da indústria da cultura e do turismo sejam pensados e explorados de maneira a beneficiar a cidade como um todo. Isto significa valorizar e potencializar toda a cadeia de valores, capacitando e apoiando especialmente os pequenos empreendedores.
- Do ponto de vista social, significa, entre outras coisas, garantir que Paraty seja uma cidade realmente inclusiva. Que a população local se sinta parte de um projeto comum que extrapola a permanente valorização do Centro Histórico. Isto implica, por exemplo, investimentos em infraestrutura de transportes, mas também em equipamentos e atividades culturais que estimulem os visitantes a conhecer, interagir e consumir cultura nas distintas zonas da cidade, especialmente aquelas que estão fora do circuito turístico tradicional.
- Com relação ao meio ambiente, há ainda muito a ser feito, como lembrou Victor Zveibil. É urgente a implantação de um sistema de saneamento básico que proteja os rios da região da contaminação, como o Perequê-Açu, e por com seguinte a saúde da população e dos visitantes. A coleta e tratamento de lixo e resíduos sólidos é outro desafio urgente. Há todo o tema de proteção das encostas que está sendo tratado. Enfim, a agenda ambiental de Paraty não é diferente da maioria das cidades brasileiras.
A “glocalidade” de Paraty, ou seja, sua capacidade de atrair a atenção de pessoas de todos os lugares do mundo, apaixonadas que ficam justamente pelas suas características (história, arquitetura, tradições culturais, natureza) é talvez o seu aspecto mais singular. Por isso, a cidade reúne todas as condições de se tornar não apenas um modelo de cidade criativa, mas uma referência em sustentabilidade no Brasil e no mundo.
Antes de almejar o título de Cidade Patrimônio Histórico e Artístico da Humanidade, talvez Paraty devesse se consolidar como a “Cidade da Sustentabilidade”. Onde o moderno, o cosmopolita e o tradicional se encontram, se fundem e se recriam para criar uma comunidade de cidadãos felizes e orgulhosos.
E não há visitante que não queira reproduzir este clima de felicidade em suas próprias casas e cidades. Será a pequena contribuição de Paraty para criar um mundo melhor.
Oi Renato
Uma boa iniciativa para tornar as cidades mais “sustentáveis” é o movimento chamado Transition Towns. Começou em Totnes na Inglaterra e está se espalhando pelo mundo inclusive no Brasil. Tem alguma atividade na Granja Vianna.
Vide o blog: http://transitionbrasil.ning.com/
Se aceitar o convite de ir na reunião podia levar notícias desta iniciativa.
Abs
Richard
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