Pequenas e Médias Empresas e Responsabilidade Social Empresarial/Sustentabilidade
Pequenas e Médias Empresas e Responsabilidade Social Empresarial/Sustentabilidade
Existem muitos artigos e estudos de caso sobre os esforços das grandes empresas em matéria de responsabilidade social empresarial (RSE) e sustentabilidade. As melhores empresas ganham prêmios e aparecem em “rankings” e, porque não, utilizam estes feitos em seu marketing e na promoção da sua imagem e reputação.
Por outro lado é mais difícil encontrar notícias similares envolvendo pequenas e médias empresas (PMEs). Aí vem a pergunta:
Quais são os fatores que influenciam as PMEs no Brasil para enfrentar os desafios da sustentabilidade e adotar práticas de responsabilidade social empresarial (RSE) nos seus negócios?
Fiquei interessado neste tema e em 2009 e preparei um estudo acadêmico para responder a pergunta acima. Porém meu interesse não era puramente acadêmico porque, como consultor em sustentabilidade, queria também responder a outra pergunta:
As PMEs são um mercado em potencial para consultoria em RSE/sustentabilidade?
O estudo foi baseado numa revisão da literatura. Pela dificuldade em encontrar estudos sobre as PMEs no Brasil a pesquisa foi ampliada para incluir estudos sobre PMEs na Europa e na América Latina.
Antes de entrar nos detalhes dos estudos será importante resumir o conceito de responsabilidade social empresarial que norteou as pesquisas.
Responsabilidade Social Empresarial (RSE)
A primeira responsabilidade de uma empresa é ser economicamente sustentável, ou seja, criar valor para seus acionistas. A sustentabilidade econômica deveria incluir todos os custos e benefícios gerados pela empresa. No entanto muitos custos, particularmente os custos de natureza social e ambiental, são efetivamente danos colaterais e geralmente chamados de “externalidades”. Embora estes custos impactem negativamente outras “partes interessadas” nas operações da empresa, como funcionários, fornecedores, a comunidade local, etc., não são captados por métodos convencionais de contabilidade.
O termo mais comum usado para descrever as responsabilidades e as ações das empresas para com as partes interessadas é a responsabilidade social empresarial (RSE). Estas ações são aquelas voluntárias que vão além do mero cumprimento legal, e, apesar do nome, são geralmente entendidas de incluir a responsabilidade social e ambiental.
Embora não haja consenso sobre uma definição precisa do âmbito ou os limites da responsabilidade social e ambiental das empresas em relação ao governo e a sociedade civil, alguns conceitos são mais citados na literatura. O relatório Brundtland da ONU (1987) definiu “desenvolvimento sustentável” como:
“Desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento que permita a geração atual satisfazer suas necessidades sem comprometer a possibilidade das gerações futuras satisfazerem as suas próprias necessidades.”
Este conceito foi traduzido para o mundo empresarial na idéia de um “triple bottom line” (Elkington, 1999) que é essencial mente uma metáfora para descrever esta responsabilidade ampliada (econômica, social e ambiental) em contraste com conceito tradicional que considerava apenas o lucro econômico e os interesses dos acionistas. Cresceu também é a idéia que as empresas têm que reconhecer que existem interesses legítimos nas suas operações de outras partes interessadas (“stakeholders”) além dos acionistas.
No Brasil uma das definições de RSE mais aceita é a do Instituto Ethos:
“Responsabilidade Social Empresarial é a forma de gestão que se define pela relação ética e transparente da empresa com todos os públicos com os quais ela se relaciona e pelo estabelecimento de metas empresariais compatíveis com o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para as gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades sociais.”
Um ponto importante para salientar é que esta definição também inclui a idéia que a forma de fazer RSE, isto é, com ética e governança corporativa, é tão importante quanto o conteúdo das medidas tomadas.
Na prática as empresas respondem às pressões das partes interessadas em diferentes níveis de compromisso e de uma forma reativa ou proativa. Uma das primeiras tentativas de classificar a aprendizagem organizacional para a RSE foi proposta por pesquisadores da Accountability (Zadek et al, 2005) e caracteriza o nível de comprometimento das empresas para a RSE em 5 níveis, como segue:
1. Defensivo: negação de responsabilidade;
2. “Compliance”: conformidade com a política estabelecida;
3. Gerencial: a incorporação da RSE nos processos básicos;
4. Estratégico: a incorporação da RSE nas estratégias fundamentais;
5. Civil: a promoção da RSE em sua indústria e na sociedade;
Apesar de cada empresa ser livre de decidir em que nível ela está disposta e capaz de agir somente as empresas nos níveis estratégico e civil da RSE podem ser consideradas como engajadas efetivamente na resolução dos desafios da sustentabilidade. Do ponto de vista de consultoria em sustentabilidade estas são as empresas que representam a maior potencial.
Definição de Pequenas e Médias Empresas (PMEs)
Apesar de existirem várias maneiras de definir as PMEs (vendas, ativos, empregados), a abordagem mais comum é pelo número de empregados. As classificações utilizadas nos estudos foram os da União Européia (estudos da Europa e América Latina) e SEBRAE, a principal agência no Brasil, oferecendo apoio a micro e pequenas empresas (estudos do Brasil), da seguinte forma (SEBRAE, 2008, página 34):
| No. Colaboradores | Micro | Pequena | Media | Grande |
| Europa/Am. Latina | 1-9 | 10-49 | 50-249 | 250+ |
| Brasil – Ind. e Construção | 1-19 | 20-99 | 100-499 | 500+ |
| Brasil – Comércio e Serv. | 1-9 | 10-49 | 50-99 | 100+ |
O número total de empresas formalmente constituídas (com empregados) no Brasil em 2006 foi reportado a seguir (SEBRAE, 2008, página 258):
| No. Empresas (‘000) | Micro | Pequena | Media | Grande | Total |
| Ind. e Construção | 297,7 | 53,3 | 11,2 | 2,0 | 364,2 |
| Comércio e Serv. | 1.575,5 | 258,4 | 24,1 | 18,8 | 1.876,8 |
| Total | 1.873,2 | 311,7 | 35,3 | 20,8 | 2.241,0 |
| Total (%) | 83,6% | 13,9% | 1,6% | 0,9% | 100,0% |
A tabela demonstra que a vasta maioria das empresas no Brasil são micro/pequenas (97,5%) e isso é uma indicação do nível da importância das atividades dos pequenos empreendedores para a economia.
Uma das fontes mais completas de informações sobre a empreendedorismo das PMEs é o relatório anual “Global Entrepreneurship Monitor (GEM)” (Bosma et al, 2009), que rastreia e analisa o empreendedorismo em 43 países, com base em dados de questionários a pelo menos 2.000 adultos em cada país. Os comentários abaixo foram baseadas no relatório global mencionado acima e o relatório GEM para o Brasil (Greco et al, 2009) para 2008.
O arcabouço de análise da GEM considerava que os resultados para o desenvolvimento econômico do país oriundas da atividade empresarial dependessem (i) do contexto social e político, do contexto cultural, (ii) as condições de concorrência, (iii) e o perfil dos próprios empresários (atitudes e percepções, atividades e aspirações).
Os países foram agrupados pelo nível desenvolvimento econômico utilizando as seguintes três classificações (desenvolvido por Porter et al, 2002, citado por Bosma et al, 2009): orientado por fatores; orientado por eficiência; e orientado pela inovação. No caso do Brasil, o perfil dos empreendedores na amostra consistia principalmente de pequenas e micro empresas. O Brasil foi classificado como um país orientado por eficiência, ou seja, as oportunidades de negócios estão se expandindo, especialmente no crescimento das operações de fabricação em pequenas cadeias de valor.
Os relatórios deram informações detalhadas sobre o perfil dos empreendedores em pequenas e micro empresas. A grande maioria dos empresários (90%) não tinha formação universitária, ganhava menos de US $ 1.500 por mês e estimava que fosse empregar um máximo de cinco pessoas nos próximos cinco anos.
Revisão da literatura sobre as PMEs e RSE
A revisão da literatura inclui onze estudos internacionais de práticas de RSE das PMEs: seis da Europa, cinco da América Latina e um do Brasil. Uma análise comparativa dos estudos foi elaborado (Figura 1) nas seguintes categorias de informações:
- Descrição do Estudo;
- Pontos Gerais Comuns;
- Áreas Prioritárias (Partes Interessadas);
- Motivações;
- Barreiras;
Figura 1 – Análise Comparativa de Estudos Internacionais sobre as PMEs e RSE
| Estudo > | 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10 | 11 |
| País/Região > | RU | RU | RU | RU | DIN | EU | AL/
BR |
AL/
BR |
AL/
BR |
BR | BR |
| Ano > | 2003 | 2004 | 2006 | 2007 | 2006 | 2007 | 2005 | 2005 | 2008 | 2006 | 2009 |
| Descrição do Estudo | |||||||||||
| Tipo de Estudo (Questionário-QU) /Estudo de Caso-EC/Visão Geral-VG) | QU | EC | EC | QU | QU | VG | QU | VG | VG | QU | QU |
| Número de Empresas | 200 | 11 | 24 | 1.700 | 1.071 | N/A | 1.330 | N/A | N/A | 630 | 1.333 |
| Tamanho das Empresas (P/M/G) | P/M | P/M | P/M | P/M | P/M | P/M | P/M | P/M | P/M | P/M | P/M/G |
| Mostra Aleatória | X | X | X | X | X | X | |||||
| Experiência em RSE | X | X | |||||||||
| Pontos Gerais Comuns sobre PMEs x RSE | |||||||||||
| Não são versões menores de empresas grandes | X | X | X | X | X | X | X | ||||
| São individuais – precisa identificar/tipificar | X | X | X | X | X | ||||||
| As maiores são mais ativas em RSE | X | X | X | ||||||||
| Elas se consideram socialmente responsáveis | X | X | X | X | X | X | X | X | |||
| Valores e relacionamentos são muito importantes | X | X | X | X | |||||||
| Não procuram maximizar os lucros – querem uma renda decente | X | X | X | X | X | X | |||||
| Atividades de RSE são muitas vezes feitas com outros nomes | X | X | X | X | X | X | X | ||||
| Reconhecem o crescimento da importância de RSE | X | X | X | X | X | X | X | X | X | X | X |
| Áreas Prioritárias de RSE
(Partes Interessadas) |
|||||||||||
| Colaboradores | X | X | X | X | X | X | X | X | X | X | X |
| Clientes/Cadeia de Valor | X | X | X | X | X | X | X | X | |||
| Comunidade/Filantropia | X | X | X | X | X | X | X | X | |||
| Meio-ambiente | X | X | X | X | X | ||||||
| Motivações para RSE | |||||||||||
| Valores/Ética do Proprietário (reconhece que empresas têm responsabilidades sociais) | X | X | X | X | X | X | X | X | X | X | |
| Consideram RSE como boas práticas (embora os benefícios não sejam quantificados) | X | X | X | X | X | X | X | ||||
| RSE é parte dos negócios (benefícios quantificados) | X | X | |||||||||
| Reputação/Imagem | X | X | |||||||||
| Relacionamentos com os colaboradores | X | X | X | X | X | X | X | X | X | X | X |
| Relacionamentos com clientes/cadeia de valor | X | X | X | X | X | X | X | X | |||
| Relacionamentos com a comunidade | X | X | X | X | X | X | X | X | |||
| Barreiras à RSE (uma vez interessada) | |||||||||||
| Custo | X | X | X | X | X | X | X | ||||
| Faltam recursos (tempo, pessoas) | X | X | X | X | X | X | |||||
| Falta consciência/conhecimento | X | X | X | X | X | ||||||
| Terminologia da RSE é desconhecida, difícil, burocrático | X | X | X | X | X | X | |||||
| Abordagens para o Engajamento | |||||||||||
| Abordagens pessoais com os proprietários (de acordo com o tipo de proprietário) | X | X | X | X | |||||||
| Terminologia simples | X | X | X | X | |||||||
| Argumentos de negócios (alguns tipos) | X | X | X | ||||||||
| Redes de aprendizagem (com seus pares) | X | X | X | ||||||||
| Divulgação de estudos e ferramentas | X | X | X | X | X | X | |||||
| Envolvimento da cadeia de valor | X | X | X | X | |||||||
| Apoio/participação de associações de classe | X | X | X | X | X | ||||||
| Apoio de ONGs | X | X | X | X | X | X | |||||
| Apoio de Governo, Agências | X | X | X |
Legenda – Estudos
1. Business in the Community (BITC, 2003) Engaging SMEs in Community and Social Issues
2. Jenkins, H. (2004) Corporate Social Responsibility – Engaging SMEs in the Debate
3. Jenkins, H. (2006) A “business opportunity” model of Corporate Social responsibility for SMEs
4. Federation of Small Businesses ( 2007) Social and Environment Responsibility and the Small Business Owner
5. Grayson, and D. Dodd, T. (2007) Small is sustainable (and beautiful)
6. TNS Gallup (2006) People and Profit Phase 2 Mapping CSR activities among SMES
7. Vives, A. (2005) Social and Environmental Responsibility in SMEs in Latin America
8. Vives, A. et al (2005) Responsabilidad Social da La Empresa en las PyMEs de Latinoamerica
9. Cici, C., Ranghieri, F. (2008) Recommended actions to foster the adoption of CSR practices in SMEs
10. Instituto Ethos (2006) Pesquisa Nacional para o Projeto TEAR
11. Instituto Ethos e Instituto Akatu (2009) Práticas e Perspectivas da RSE no Brasil 200 – Sumário da Pesquisa
Fonte: Elaborado pelo autor
Resultados da Análise Comparativa
Considerando que os estudos foram realizados em vários países e que adotaram diferentes definições e categorias para avaliar as atividades de RSE, houve um razoável grau de consistência nos resultados.
A partir da análise comparativa acima as seguintes conclusões gerais foram feitas sobre “como” e “por que” as PMEs se envolvem em atividades de RSE:
1. A maioria das PMEs fez atividades de responsabilidade social, embora sem usar essa terminologia (desconhecido ou considerado difícil ou confusa);
2. As atividades de RSE foram percebidas pelas PMEs a ser cada vez mais importantes e vários estudos relataram que as PMEs acreditavam que elas eram “naturalmente” socialmente responsáveis;
3. A principal motivação dada para a prática de RSE foi a ética e isso foi resultado da personalidade e dos valores do proprietário-gerente;
4. As atividades de RSE foram geralmente consideradas pelos proprietários-gerentes de ser “boas práticas empresariais” e as atividades foram direcionadas principalmente para as partes interessadas mais importantes da cadeia de valor (colaboradores, clientes, fornecedores) e a comunidade local. Os benefícios não foram quantificados em geral;
5. As PMEs tinham relações pessoais fortes com as partes interessadas mais importantes;
6. As principais barreiras para engajar mais na RSE foram dadas como custo, falta de recursos e falta de consciência ou conhecimento.
Do exposto pode-se concluir que o nível de empenho das PME para a RSE depende essencialmente da motivação e valores dos proprietários-gestores e as atividades realizadas foram essencialmente no nível “gerencial” na escala Accountability de RSE.
Havia também algumas diferenças entre os estudos europeus e latino-americanos. Os estudos demonstraram que as PMEs européias tinham mais preocupação com o meio ambiente e questões da comunidade e, em alguns casos, mais consciência da relevância de RSE para os negócios.
Os estudos sobre a América Latina e do Brasil destacou a importância do papel das associações de classe, em parte devido a estas serem consideradas parceiras confiáveis e, em parte devido à falta de iniciativas do Governo. A pressão dos grandes clientes através das cadeias de fornecimento também foi visto com uma fonte de pressão cada vez mais importante.
Os benefícios das ações de RSE para os negócios foram percebidos pelas PMEs, mas não eram normalmente quantificadas. No entanto, em dois dos estudos, tinham evidências de que existem grupos ou tipos de PME com uma visão mais estratégica da RSE.
No primeiro estudo (BITC et al, 2003) foram entrevistados os diretores executivos de 200 PMEs e foram identificados seis tipos distintos de comportamento, a seguir:
1. “Arthur Daleys”: motivadas somente por ganhos financeiros;
2. “One-offs”: ações esporádicas executadas por indivíduos com experiência mínima de RSE; as motivações eram temáticas;
3. “DIYers”: ações executadas por indivíduos altamente independentes e as atividades de RSE foram fragmentadas;
4. “Ben & Anitas”: empresas sociais que podem compreender e agir sobre os conceitos de RSE;
5. “Smart Pragmáticos”: as pragmáticas e inteligentes motivadas pelos benefícios para os negócios;
6. “Pragmáticos Iluminados”: pragmáticas, mas motivadas também pelos efeitos mais amplos na sociedade (a longo prazo) bem como o impacto nos negócios.
Devido às diferenças substanciais na condição política, econômica e social entre o Reino Unido e o Brasil não podemos presumir que estes resultados também se aplicariam diretamente ao Brasil. Por outro lado, os resultados indicaram que a investigação sobre a categorização das motivações de negócios das PME no Brasil poderia ser útil na identificação de grupos de empresas pelos quais a visão de RSE é estratégica.
O segundo estudo, que forneceu uma perspectiva útil sobre as empresas mais avançadas estava focado nas oportunidades de negócios vindas da atuação social (Jenkins 2006) e foi baseada num estudo de caso de 24 PMEs do Reino Unido que foram selecionadas por serem avaliadas previamente como “exemplares” em termos de RSE.
O objetivo do estudo foi a investigação da aplicação dos conceitos do livro “Corporate Social Opportunity (CSO)” (Grayson e Hodges, 2004) à PMEs no Reino Unido. O estudo analisou as motivações e atividades de RSE e, com base nas melhores práticas observadas, desenvolveu um modelo de “oportunidade de negócio social” para as PME. O estudo detectou que elas tinham um conjunto diferente de motivações (“drivers”) de negócio comparadas com as grandes empresas.
Então talvez o modelo “oportunidade de negócio social” pode ser aplicado no Brasil para aquelas PMEs consideradas “exemplar” em RSE.
PMEs e Desempenho em RSE no Brasil
Como mencionado anteriormente existe uma carência de estudos sobre a RSE nas PMEs para o Brasil e particularmente sobre as medidas objetivas de desempenho RSE. Por outro lado têm alguns estudos a nível País que dão um pouco de luz.
Dois estudos foram baseados num arcabouço chamado “competitividade responsável (CR)” ((Zadek et al, 2005) e (MacGillivray et al, 2007)) e deram uma indicação sobre o desempenho em RSE das empresas brasileiras comparado com outros países. A hipótese básica dos estudos era de que uma empresa só ia conseguir uma vantagem competitiva a partir de RSE se incorporasse metas de RSE em suas atividades essenciais e que este dependia (i) dos processos de aprendizagem organizacional da empresa individual e (ii) a aprendizagem social país.
O Índice de Competitividade Responsável índice (RCI) foi desenvolvida e foi possível identificar quatro grupos distintos de países em estágios diferentes de RC: Iniciante; “Compliance”; Assertivo e Inovador (MacGillivray et al, 2007).
Brasil foi identificado como sendo no estágio “Compliance” e a conclusão foi que esse baixo nível de competitividade responsável nacional tenderia a limitar a evolução da RSE ao nível de empresa.
Os melhores dados disponíveis publicamente sobre o desempenho de RSE ao nível empresa têm sido coletados e divulgadas pelo Instituto Ethos desde 2000. Os dados são obtidos através de questionários organizados em um conjunto de 40 indicadores. Os questionários e indicadores são uma ferramenta de autodiagnóstico para que as empresas possam medir seu próprio desempenho em RSE e também compará-lo com as demais participantes (Ethos, 2009) sem ser identificadas.
Os resultados para as empresas que participaram no período 2006-8 foram a seguir:
| Empresa > | Empresas “Benchmark” | Banco de Dados | ||||
| Temas Ano> | 2006 | 2007 | 2008 | 2006 | 2007 | 2008 |
| Valores, Transparência e Governança | 9,2 | 9,4 | 8,8 | 4,7 | 4,4 | 5,1 |
| Colaboradores | 8,3 | 8,7 | 7,9 | 4,1 | 3,9 | 4,4 |
| Meio-ambiente | 8,7 | 9,8 | 9,0 | 4,3 | 4,0 | 4,5 |
| Fornecedores | 9,2 | 9,5 | 8,5 | 3,8 | 3,6 | 4,3 |
| Consumidores e Clientes | 9,9 | 9,6 | 9,9 | 6,2 | 5,5 | 6,2 |
| Comunidade | 9,3 | 9,1 | 9,5 | 4,0 | 3,3 | 4,5 |
| Governo e Sociedade | 9,2 | 9,1 | 9,3 | 4,0 | 3,5 | 5,0 |
| No. Empresas | 642 | 852 | 860 | 642 | 852 | 860 |
Fonte: Elaborada pelo autor a partir de informações fornecidas pelo Instituto Ethos
As pontuações das empresas de referência (“benchmark”) correspondiam à média das empresas com as 10 melhores notas em cada categoria e as pontuações para o banco de dados foram as médias de todas as empresas que participaram. Embora os resultados do grupo de benchmark fossem próximos ao máximo (10) as pontuações médias para a população total de empresas foram substancialmente mais baixas.
Outro estudo chamado “Criando Valor” (Sustentabilidade e IFC, 2002) investigou o caso de negócios para a RSE em mercados emergentes, incluindo Brasil. Este estudo foi uma adaptação do conceito chamado de “Matriz de Valor Empresarial Sustentável” que tinha sido desenvolvido em um relatório anterior chamado “Buried Treasure” (Sustentabilidade e UNEP, 2001).
O estudo “Criando Valor” desenvolveu uma matriz de sete medidas de sucesso empresarial por sete dimensões da sustentabilidade e classificou 240 estudos de caso de sucesso em desempenho em RSE nas células da matriz. O estudo incluiu 20 empresas brasileiras, dos quais 2 eram PMEs. No geral a matriz incluiu 20 estudos de caso sobre PMEs, localizadas em 15 países diferentes.
A conclusão geral deste estudo (para todos os mercados emergentes) foi a importância da redução de custos como um fator motivador (“driver”) para RSE. Uma análise dos casos brasileiros (independentemente do tamanho da empresa) revelou que as empresas foram distribuídas em uma ampla gama de células diferentes na matriz, ou seja, apresentaram várias formas diferentes de usar RSE para alavancar os negócios. Embora esta informação seja essencialmente anedota, por uma amostra muito pequena, pelo menos é uma indicação que pode haver muitas maneiras de agregar valor através da RSE no Brasil.
Levando em consideração todas as informações sobre desempenho em RSE, reconhecidamente limitadas, podemos concluir que: (i) o nível médio da RSE desempenho na escala RCI (vide acima) para a população das empresas (de todos os tamanhos) no Brasil é baixa (“Compliance”) e, menos ainda para as PME (“Iniciantes”), e (ii) existe alguma evidência de que existem grupos de empresas que já estão engajados em RSE no nível estratégica, ou seja, as empresas “benchmark” e dos Indicadores Ethos e as empresas na Matriz de Valor Empresarial Sustentável.
Resumo das Conclusões
O objetivo do estudo foi responder a seguinte pergunta:
Quais são os fatores que influenciam as PME no Brasil para enfrentar os desafios da sustentabilidade em suas estratégias de negócio?
A partir da análise comparativa acima as seguintes conclusões gerais foram feitas sobre “como” e “por que” as PMEs se envolvem em atividades de RSE:
1. A maioria das PMEs fez atividades de responsabilidade social, embora sem usar essa terminologia (desconhecido ou considerado difícil ou confusa);
2. As atividades de RSE foram percebidas pelas PMEs a ser cada vez mais importantes e vários estudos relataram que as PMEs acreditavam que elas eram “naturalmente” socialmente responsáveis;
3. A principal motivação dada para a prática de RSE foi a ética e isso foi resultado da personalidade e dos valores do proprietário-gerente;
4. As atividades de RSE foram geralmente consideradas pelos proprietários-gerentes de ser “boas práticas empresariais” e as atividades foram direcionadas principalmente para as partes interessadas mais importantes da cadeia de valor (colaboradores, clientes, fornecedores) e a comunidade local. Os benefícios não foram quantificados em geral;
5. As PMEs tinham relações pessoais fortes com as partes interessadas mais importantes;
6. As principais barreiras para engajar mais na RSE foram dadas como custo, falta de recursos e falta de consciência ou conhecimento.
Também me interessava saber quais eram as implicações e potencial para serviços de consultoria em sustentabilidade.
As implicações dos resultados para serviços de consultoria em RSE/sustentabilidade são a seguir:
1. A abordagem deve ser feita através do gerente-proprietário e após uma análise cuidadosa das circunstâncias específicas da empresa e os desafios de sustentabilidade para o setor;
2. A abordagem deve ser em linguagem simples, evitando a terminologia acadêmica da RSE, e apoiada pela utilização de estudos de caso e melhores práticas;
3. As soluções devem adotar um quadro conceitual simples, adequadas para as PMEs, para a integração da RSE na estratégia e no dia-a-dia dos processos operacionais;
4. A consultoria deve focar as médias empresas (não pequenas ou micros) como potenciais clientes, uma vez que seria mais provável ter a motivação, capacidade técnica e recursos financeiros para um projeto efetivo RSE estratégica;
5. Uma vez que este ainda é um mercado potencial muito grande (37.000 empresas), e do nível geral de RSE no Brasil é baixa, então os critérios devem ser desenvolvidos para selecionar os clientes adequados para a RSE estratégica;
6. É mais provável que um projeto de RSE estratégica produza benefícios em empresas (ou setores), onde:
- Os valores o proprietário-gerente estão alinhadas com uma abordagem estratégica da RSE;
- Existem evidências de atividades de RSE no nível gerencial ou superior;
- Existe um caso de negócio ou vantagem competitiva de RSE para o setor;
- Está numa cadeia de valor e sob a pressão dos grandes clientes para melhorar em RSE;
A Lista de Referências
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Broman, G., Holmberg, J., and K.-H. Robèrt (2000) Simplicity without Reduction -Thinking Upstream towards the Sustainable Society Interfaces: International Journal of the Institute for Operations Research and the Management Sciences. 30 (3) Located at:
http://www.thenaturalstep.org/sites/all/files/3a-Simplicityreduction.pdf Accessed on: July, 25 2009
Business in the Community (BiTC), British Chambers of Commerce, Institute of Directors, Accountability (2003 July) Engaging SME’s in Community and Social Issues Department of Trade and Industry (DTI) Located at:
http://www.bitc.org.uk/resources/publications/engaging_smes.html Accessed on: July, 25 2009
Cici, C., Ranghieri, F. (2008) Recommended actions to foster the adoption of Corporate Social Responsibility (CSR) practices in Small and Medium Enterprises (SMEs)
Inter-American Development Bank Located at:
http://idbdocs.iadb.org/wsdocs/getdocument.aspx?docnum=1353696 Accessed on: July, 25 2009
Elkington, J. (1998) Cannibals with Forks: The triple Bottom Line of 21st Century Business New Society Publishers
Federation of Small Businesses (2007 December) Social and Environmental Responsibility and the Small Business Owner Federation of Small Businesses Located at:
http://www.fsb.org.uk/policy/assets/CSR%20Dec%202008.pdf Accessed on: July, 25 2009
Greco, S.M.S.S., et al (2009) Empreendorismo no Brasil: 2008 Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP) Located at:
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Grayson, D., Dodd, T. (2007) Small is sustainable (and beautiful!) – encouraging European smaller enterprises to be sustainable The Doughty Centre for Corporate Social Responsibility Located at: https://dspace.lib.cranfield.ac.uk/bitstream/1826/3204/1/Small%20is%20Sustainable-and%20Beautiful-2007.pdf Accessed on: July, 25 2009
Grayson, D. and Hodges, A. (2004) Corporate Social Opportunity! 7 Steps to make
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Instituto Ethos (2006) Pesquisa Nacional para o Projeto TEAR – Tecendo Redes Sustentáveis Located at: http://www.uniethos.org.br/_Uniethos/Documents/pe_ethos_2006_(2007-2009)_publicada_site.ppt Accessed on: July, 25 2009
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Siga o dinheiro: Investidores e Sustentabilidade
“Siga o dinheiro” é o mantra moderno dos policiais para desvendar os crimes mais complexos.
Sem querer exagerar nas comparações, será que podemos lançar mão da essência da idéia de seguir o dinheiro para também destrinchar o tema da sustentabilidade? Read the rest of this entry »